Watergate trouxe o escândalo à discussão política, diz biógrafo de Nixon

Em 9 de agosto de 1974, Richard Nixon se tornava o primeiro presidente da história dos Estados Unidos a renunciar ao seu cargo. Líder de enormes poderes e reeleito por uma grande margem de votos dois anos antes, Nixon não resistiu ao intenso escrutínio da mídia e do Congresso resultantes da prolongada investigação do escândalo conhecido como o caso Watergate.

Neste domingo, 17 de junho, a invasão da sede do Partido Democrata em Washington, localizada no complexo de edifícios Watergate, completa 40 anos. A ação foi o marco inicial do escândalo. A partir dali, a intensa cobertura realizada pela dupla de jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein culminou com a revelação de que a invasão fazia parte de uma campanha produzida pelo comitê de reeleição de Nixon para sabotar os seus adversários.

O Terra conversou com o jornalista e escritor Don Fulsom, que no início deste ano lançou uma polêmica biografia sobre o ex-presidente intitulada Nixon’s Darkest Secrets (Os Segredos Mais Negros de Nixon, na tradução livre). Na obra, Fulsom revela às escusas relações de Nixon com o poder, incluindo sua ligação com a máfia.

Fulsom considera Nixon como o presidente mais corrupto da história americana e o caso Watergate como um divisor de águas na política do país. O biógrafo também comenta a importância do caso para o jornalismo investigativo – Woodward e Bernstein se tornaram currículo obrigatório em faculdades de comunicação -, e lamenta que atualmente não haja, por parte da imprensa, o mesmo nível de investimentos dedicados à investigação de casos de corrupção. Confira a seguir a íntegra da entrevista:

Terra – Richard Nixon foi um homem de segredos negros, como diz o seu livro, e o escândalo de Watergate foi o mais notório caso de suas ações corruptas. Como era a relação de Nixon com o poder?
Don Fulsom – Nenhum outro presidente foi tão corrupto quanto Nixon. Ninguém foi tão corrupto, porque ninguém controlou tantos poderes. Nem mesmos os líderes do crime organizado e grandes executivos chegaram perto de ter tanto poder e influência.

Terra – Porque Nixon é o presidente mais corrupto da história? Você poderia exemplificar as ações criminosas dele?
Don Fulsom – Ele abusou de poderes por meio de atividades ilegais, como grampos ilegais, espionagem de inimigos, planejamento e execução de arrombamentos, planejamento do assassinato de um repórter, coleta de contribuições da máfia de outros países para campanha. Ele corrompeu o FBI, o Serviço de Receita Interna, o Departamento de Justiça e numerosas outras agências governamentais. E então ele tentou encobrir estes crimes através de mentiras e pagamentos para impedir os seus assessores corruptos de contar a verdade para os investigadores do caso Watergate.

Quarenta de seus assessores mais próximos – incluindo o antigo procurador-geral, a maior autoridade de aplicação da lei – foram indiciados ou presos por suas ilegalidades. O próprio Nixon foi poupado de um julgamento e possivelmente da prisão porque o seu sucessor escolhido a dedo, Gerald Ford, lhe deu um “total e completo perdão” por seus crimes na Casa Branca. Foi o maior escândalo político americano e ele estava no comando de tudo. Ele era um pretenso ditador, mas o sistema constitucional dos Estados Unidos, de freios e contrapesos, funcionou no fim. O Congresso, tribunais, um júri e promotores especais fizeram o seu trabalho corretamente. Membros de seu próprio partido Republicano lhe disseramque sofreria o impeachment se não renunciasse. Ele renunciou.

Terra – Por que nenhum presidente americano teve tanto poder?
Don Fulsom – Os poderes de um presidente americano são grandes. Por exemplo, é o presidente, não o Congresso, que tem seus dedos sobre o botão nuclear. Quando bêbado, Nixon gostava de bradar que poderia matar 40 milhões de pessoas em 40 minutos, se assim desejasse.

Terra – Que mudanças o caso Watergate trouxe para a Casa Branca, tanto em termos de trabalho para os jornalistas como no comportamento dos políticos?
Don Fulsom – Nenhum presidente desde Nixon grampeou secretamente conversas telefônicas. Leis de financiamento de campanha posteriores ao Watergate tornaram as contribuições políticas mais transparentes. Repórteres que cobrem a Casa Branca se tornaram mais céticos. E, desde o Watergate, os eleitores passaram a confiar menos em presidentes e em políticos em geral.

Terra – O caso mudou o modo como o público enxerga os políticos? Podemos dizer que ele trouxe os escândalos para o centro da discussão política?
Don Fulsom – Sim. Antes do Watergate, a maioria dos americanos tinha fé que as altas autoridades estavam sendo honestas. A maioria dos repórteres agora está mais atenta a quão facilmente políticos eleitos podem ser corruptos.

Terra – Nós vivemos em uma era em que escândalos políticos surgem e desaparecem muito rapidamente. Você diria que, devido a cortes no jornalismo investigativo, casos semelhantes de corrupção não foram esclarecidos?
Don Fulsom – O escândalo Irã-Contra (caso em que autoridades do governo facilitaram a venda de armas ao Irã em 1986, quando este país estava sob embargo) foi grande. Ele foi bem coberto pela imprensa, mas o comitê do Congresso que investigou aquele escândalo não foi tão a fundo em expor as transgressões de Ronald Reagan como foi o Comitê Watergate do Senado em desencavar os crimes de Nixon.

O caso Watergate foi uma novidade política ou apenas o primeiro a receber tamanha atenção da mídia?
Durante a era Watergate, o jornalismo investigativo floresceu, com os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein à frente. Devido a grandes cortes no número de jornalistas investigativos nos últimos anos, há um grande perigo em relação a futuros episódios de atividade criminal excessiva em altos escalões do governo.

Terra – Se acontecesse hoje, qual seria a reação ao caso Watergate?
Don Fulsom – Eu esperaria que ele recebesse o mesmo tipo de cobertura extensiva que recebeu na era Nixon. A imprensa, ainda que enfraquecida em muitos aspectos, segue forte e tem um papel importante na revelação da corrupção governamental.

Terra – Qual o impacto que o caso Watergate ainda produz no jornalismo americano?
Don Fulsom – Repórteres ainda permanecem ávidos por reeditar Woodward e Bernstein. Eles são excelentes modelos para os jornalistas atuais. Trabalharam duro, à moda antiga, e ganharam a confiança de uma formidável fonte secreta: o número 2 no FBI, Mark Felt. O trabalho de Woodward e Bernstein resultou em grande incremento no número de estudantes atraídos para a carreira jornalística.

Terra – Você diria que o caso Watergate permanece até hoje, não apenas nos Estados Unidos, como um dos casos mais influentes do Século XX?
Don Fulsom – Absolutamente.

TERRA

 

 

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