Violência contra o idoso: uma triste realidade

Confira entrevista com especialista sobre o assunto

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem hoje cerca de 15 milhões de pessoas com mais de 60 anos. A data de 15 de junho foi declarada pela ONU como o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, para criar uma cultura de não naturalização das agressões e estimular estratégias de prevenção e enfrentar este tipo de situação.

Acompanhe entrevista com Dr. Luiz Alende, médico da Unimed com especialização em Geriatria e Gerontologia.

Apesar de avanços como a criação do Estatuto do Idoso em 2003, a gratuidade no transporte interestadual, isenção no Imposto de Renda, atendimento prioritário e descontos em eventos culturais, a violência contra o idoso permanece uma triste realidade no Brasil. Quais são os tipos de violência mais praticados contra as pessoas idosas e qual é o perfil do agressor?

Dr. Luiz – Existem vários tipos de violência sendo a física a mais conhecida. É o uso da força para compelir o idoso a fazer o que não deseja. Assim, ocorrem ferimentos, espancamentos e inclusive morte, como já vimos na televisão principalmente em idosos demenciados. Há casos de cuidadores despreparados que se revoltam e passam a agredir sistematicamente o idoso. A violência física é comum mas não é a única.

Quais seriam as outras?

Dr. Luiz – Por incrível que pareça, também existe violência sexual contra o idoso. Muitas vezes a pessoa idosa é seduzida para ser explorada financeiramente. Na violência psicológica, o idoso é constantemente ameaçado para que cumpra determinadas ordens com gritos, xingamentos, chantagens. Outra violência muito comum é a econômica, quando familiares ou outras pessoas se aproximam para usufruir de rendimentos ou bens adquiridos; não é um gesto de amor mas de exploração financeira.

Hoje, devido à mudança de costumes da contemporaneidade, o abandono também está sendo mais comum. Na década de 60 e 70 o núcleo familiar era formado por indivíduos que permaneciam e conviviam na residência, as relações eram mais próximas e existia um respeito maior entre os familiares. Atualmente, o idoso perde suas companhias ou se afastam para cuidar de outros interesses, além de que o avô ou avó já não são mais reconhecidos por sua sabedoria acumulada. A “saída” encontrada pelos familiares então é encaminhá-los para casas de passagem ou asilos.

Apesar disso, os maus tratos contra o idoso são um assunto quase desconhecido pela população. Existe uma certa invisibilidade, apesar da Secretaria de Direitos Humanos registrar cinco ocorrências a cada hora contra pessoas mais velhas. Isso é um indício de que a sociedade não está preparada para receber e muito menos tratar o idoso adequadamente?

Dr. Luiz – Sem dúvida não está preparada. Essas queixas registradas são a “ponta do iceberg”, submerso a ela existe uma massa ainda maior de idosos mal tratados. A própria vizinhança ou pessoas conhecidas que presenciem agressões devem procurar as famílias ou mesmo fazer uma denúncia através dos canais existentes, sejam eles as autoridades policiais mais próximas, o Ministério Público ou o Disque 100. É um dever de todo cidadão denunciar agressões contra o idoso, trata-se de omissão de socorro se assim não o fizer.

De que forma a sociedade pode contribuir para combater a violência contra o idoso? Como a família, a mídia, cada um de nós, enfim, pode contribuir?

Dr. Luiz – Uma das formas é divulgar essa realidade para que ela não permaneça escondida. Outra é criar políticas de saúde para o idoso nos âmbitos estadual e, principalmente, municipal já que nas secretarias de assistência social de cada região as pessoas tem um conhecimento mais próximo do que acontece no seio de cada família. A constituição do Conselho Municipal do Idoso também deve ocorrer, da mesma maneira que existe em relação ao Conselho Municipal da Saúde afinal são fóruns onde questões importantes são debatidas. Por fim, introduzir de alguma forma o resgate à valorização do idoso nas escolas e empresas são iniciativas que podem ser feitas.

Desde 2010, existe o Disque Direitos Humanos (ou Disque 100). O serviço está disponível através de discagem direta e gratuita ao número 100 e após a opção 2 para fazer uma denúncia de violência contra a pessoa idosa. As denúncias recebidas pelo Disque 100 referentes ao RS são encaminhadas para o Conselho Estadual do Idoso.

(Unimed Alto Jacuí/RS)

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