Vinte anos da crise que abalou o país

O prometido caçador de marajás deixava o poder acusado de corrupção há 20 anos. Em 29 de setembro de 1992, com 441 votos favoráveis e 38 contrários, a Câmara aprovava a abertura de processo de impeachment contra Fernando Collor. O primeiro presidente eleito pelo voto direto depois do regime militar mergulhava na contradição do seu discurso.

O sim do deputado mineiro Paulo Romano provocou o frisson instantâneo que percorreu o país. A agitação transcendeu o abarrotado plenário da Câmara, transformou-se em gritos e buzinas que atravessaram a Praça dos Três Poderes e chegaram ao Palácio do Planalto.

Em pé, solitário no gabinete, o presidente Fernando Collor soube pelo som das ruas: o impeachment fora aprovado.

Visto ao vivo em milhares de televisores, Romano deu o 336º voto a favor da abertura do processo, escore mínimo para levar Collor ao julgamento no Senado, que lhe castrou os direitos políticos por oito anos. Hoje, há exatas duas décadas, o primeiro presidente escolhido em eleição direta desde Jânio Quadros (1960) era apartado do poder acusado de corrupção.

O impeachment marcou o ápice da sangria política que frustrou a nação. Eleito em dezembro de 1989 com 35 milhões de votos, Fernando Collor (PRN) prometeu moralizar um país sôfrego por 21 anos de regime militar e inflação galopante. Com seu tesoureiro de campanha, PC Farias, envolveu-se em uma rede de tráfico de influência e desvios no próprio governo.

Após o desastrado Plano Collor, que na tentativa de salvar a economia congelou as poupanças, a crise estourou em maio de 1992. Em entrevista à revista Veja, o irmão do presidente, Pedro Collor, sustentou a sociedade de PC e Collor. No dia da publicação, o então senador Amir Lando (PMDB) descansava no interior de Rondônia. Soube da reportagem à noite, pela TV.

– Pedro confirmou o que já se comentava nos corredores do Congresso – revela Lando, que atualmente advoga em Rondônia e Brasília.

Houve clima de Copa, com telões e festa
De volta à Capital, na semana seguinte o senador assumia a relatoria da CPI criada para investigar o “esquema PC”. A comissão analisou a movimentação de dezenas de milhões de dólares, Pedro e PC falaram, mas foi o motorista da secretária de Collor a peça-chave. Eriberto França confirmou que o ex-tesoureiro pagava as despesas da Casa da Dinda, residência oficial do presidente. Localizado em Brasília, França evita entrevistas a pedido da família.

– Não quero voltar para aquele turbilhão – limita-se a dizer.

Na CPI, a comprovação da compra de um Fiat Elba por um dos fantasmas de PC sentenciou o impeachment. Amir Lando incriminou o presidente no relatório. Manifestações tomaram as capitais. Insuflados pela minissérie de TV Anos Rebeldes, que tratava da luta contra o regime militar, milhares de jovens tingiram os rostos. Os caras-pintadas cobraram a queda de Collor.

A pressão popular teve êxito. Patrono do PMDB, sigla majoritária no Congresso, o deputado Ulysses Guimarães convocou a bancada para um almoço, quando informou que apoiaria o impeachment. Para tirar a natureza partidária do processo, convenceu os presidentes da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho, e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Lavenère, a protocolar o pedido na Câmara em 1º de setembro.

Presente no almoço, o então deputado Nelson Jobim soube que seria o relator da comissão criada para avaliar o impedimento. Jurista habilidoso, teve de corrigir o texto, redigido com a ajuda de peemedebistas. Após, indicou a procedência do pedido.

– Se Ulysses tivesse desistido, Collor não caía – relembra Jobim, acomodado no seu escritório em Brasília.

Isolado no Congresso e com a imagem pulverizada, o presidente padeceu. Com o relatório favorável de Jobim, o país amanheceu ansioso em 29 de setembro. Criou-se clima de Copa, telões em praças, empresas liberando funcionários. Presidente da Câmara, o gaúcho Ibsen Pinheiro conduziu a sessão histórica.

– Nas ruas o Brasil fervia, mas no plenário o clima era glacial – recorda.

Ao final, 441 deputados votaram pelo impeachment. Três dias depois, o vice Itamar Franco assumia de forma provisória o Planalto. Em dezembro, Collor renunciou, porém o Senado o condenou. Foi o desfecho da tentativa de moralizar um país que ainda reluta em se moralizar.

Governistas lutavam pela normalidade
O pedido de impeachment que culminou na queda de Fernando Collor foi o 12º que chegou à mesa do presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro. Apesar de ter evitado interferências pessoais na tramitação do processo, o presidente enviou seus emissários ao Congresso.

Líderes colloridos tentaram sustar um processo irreversível. Já o ministro da Justiça Célio Borja, empossado em abril, procurou manter o governo funcionando. A cada 15 dias, realizava reuniões sigilosas com os representantes do Senado, Câmara e Supremo Tribunal Federal (STF).

– Dividíamos funções para que o país não parasse. Foi um inferno – admite Borja aos 84 anos, do Rio de Janeiro, em conversa por telefone com ZH.

Advogado da Câmara dos Deputados em 1992, o ex-ministro Luiz Carlos Madeira acompanhou os bastidores do processo. Foi em sua casa, na região do Lago Sul, em Brasília, que os parlamentares acertaram os detalhes da tramitação do impeachment, entre eles, a opção pelo voto aberto na sessão que apreciou o pedido.

– Os governistas só aceitavam o voto aberto se a sessão ficasse para depois das eleições de outubro. Confiavam que o voto secreto salvaria Collor – revela.
Ibsen preferiu o voto aberto, escolha chancelada pelo Supremo. Na visão do ex-deputado Nelson Jobim, que anos depois exerceu o cargo de ministro da Justiça, da Defesa e do STF, foi a opção acertada e decisiva no desfecho do caso.

– Com o voto aberto, os deputados não colocaram a imagem em jogo por um presidente que desprezou o Congresso.

Clicrbs

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