Todos irmãos – Parte IV

Continuando a apresentação da Carta Encíclica Fratelli Tutti (todos irmãos), o Papa Francisco apresenta o caminho do diálogo e da amizade social. Sempre o caminho passa pelo diálogo: “aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contato” (FT, n. 198). O diálogo é a opção para o progresso de um povo, “porque todos somos povo” (FT, n. 199). “Um país cresce quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: a cultura popular, a cultura universitária, a cultura juvenil, a cultura artística e a cultura tecnológica, a cultura econômica e a cultura da família, e a cultura dos meios de comunicação” (FT, n. 199).

O contrário da falta de diálogo é buscar o interesse próprio. Um dos caminhos da busca do interesse próprio é a ausência de ver o rosto, ouvir e conversar com as pessoas. Aqueles que ficarão como heróis do futuro são os que “souberem quebrar esta lógica morbosa” (FT, n. 202). “O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos” (FT, n. 203). As diferenças criam tensões, geram desconforto, mas, além disso, devem sempre ajudar a respeitar o ponto de vista do outro, abrindo-se para conhecer a realidade de maneira mais plena.

Então o relativismo é a solução? Não, “o relativismo não é a solução. Sob o véu duma presumível tolerância, acaba-se por facilitar que os valores morais sejam interpretados pelos poderosos segundo as conveniências da hora” (FT, n. 206). Aceitar alguns valores permanentes, embora nem sempre fácil de reconhecê-los, dá solidez a uma ética social. Alguns valores são “transcendentes aos nossos contextos e nunca negociáveis” (FT, n. 211). Cada ser humano, por exemplo, “possui uma dignidade inalienável é uma verdade que corresponde à natureza humana” (FT, n. 213). O Papa usa a imagem do “poliedro”, já outras vezes apresentada como o símbolo do sentir-se igual dos outros. “Já várias vezes convidei a fazer crescer uma cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro” (FT, n. 215), visto que “o todo é superior à parte” (EG, n. 237). Enfim, lembra o pontífice, que importa “gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de recolher as diferenças. Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro” (FT, n. 217).

Enfim, o Papa recorda que o caminho é a amabilidade. “O individualismo consumista provoca muitos abusos” (FT, n. 222). A ideia da amabilidade vem de Paulo, que fala de um estado de ânimo não áspero, rude, duro, mas benigno e suave (cf. FT, n. 223). “É um modo de tratar os outros, que se manifesta de diferentes formas: amabilidade no trato, cuidado para não magoar com as palavras ou os gestos, tentativa de aliviar o peso dos outros. Supõe dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam” (FT, n. 223). A amabilidade é a libertação da crueldade que penetra nas relações humanas e da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros.

Enfim, o diálogo é, sem dúvidas, o modo mais humano e cristão de conviver num mundo cada vez mais plural. De fato, quem não sabe dialogar, não conseguirá viver na nossa sociedade. Sejamos construtores do diálogo e do respeito.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta

Compartilhe: