Todos irmãos – Parte II

Continuamos a refletir sobre a Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco. Um “mundo aberto” parte de um coração aberto, que sabe amar. O ser humano é, essencialmente, um dom para os outros. A partir do próprio coração, o ser humano cria vínculos e amplia a existência, numa lei de sair de si mesmo para encontrar no outro o ser. Para que isto seja possível, em primeiro lugar está o amor, que “nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar” (FT, n. 92). As várias virtudes morais encontram no amor o dinamismo e abertura para com as outras pessoas. “Este dinamismo é a caridade, que Deus infunde” (TF, n. 91).

A lógica aberta do amor é nos colocar na dinâmica universal, na tensão para a comunhão universal. Todos os dias temos o desafio da abertura não geográfica, mas existencial: “cada irmã ou cada irmão que sofre, abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país” (FT, n. 97). O amor deve atingir também os “exilados ocultos”, as pessoas com deficiência. Podemos viver a harmonia e a paz, “sem a necessidade de sermos todos iguais” (FT, n. 100). No próprio país não se pode “olhar para a sua gente com desprezo, estabelecendo na própria sociedade categorias de primeira e segunda classe, de pessoas com mais ou menos dignidade e direitos” (FT, n. 99). Este, sem dúvidas, não é o ensinamento do Bom Samaritano. Este, “livre de todas as etiquetas e estruturas, foi capaz de interromper a sua viagem, mudar os seus programas, estar disponível para se abrir à surpresa do homem ferido que precisava dele” (FT, n. 101). Que tipo de reação poderia provocar esta narração na sociedade com crescente número de pessoas que se fecham em si mesmas? De fato, “o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer” (TF, n. 105).

Todo ser humano tem o direito fundamental de viver com dignidade. Para isto, “há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância” (FT, n.106). Todos, investir nos mais fracos e lentos, para que possam crescer na vida. Se o lugar onde a pessoa nasceu é pobre, é preciso haver diferenciação para os que mais precisam, pois a “fraternidade universal” (FT, n. 110), só será possível quando nosso sistema econômico-social “ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada” (FT, n.110).

Enfim, fala da “função social da propriedade” (FT, n.118-120). Cita São João Paulo II: “Deus deu a terra a todo gênero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém” (Centesimus annus, n.31). A tradição cristã sempre reconheceu que a propriedade privada não tem um valor absoluto. Assim fala Francisco: “O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal do bens criados, e isto tem consequências muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade” (FT, n.120). O grande problema, conclui o Papa, é quando “o direito secundário se sobrepõe aos prioritários e primordiais” (FT, n.120). Também recorda que este direito é universal, não é definido por fronteiras, pois, “é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pela fato de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, de por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento” (FT, n.120).

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

Continuamos a refletir sobre a Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco. Um “mundo aberto” parte de um coração aberto, que sabe amar. O ser humano é, essencialmente, um dom para os outros. A partir do próprio coração, o ser humano cria vínculos e amplia a existência, numa lei de sair de si mesmo para encontrar no outro o ser. Para que isto seja possível, em primeiro lugar está o amor, que “nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar” (FT, n. 92). As várias virtudes morais encontram no amor o dinamismo e abertura para com as outras pessoas. “Este dinamismo é a caridade, que Deus infunde” (TF, n. 91).

A lógica aberta do amor é nos colocar na dinâmica universal, na tensão para a comunhão universal. Todos os dias temos o desafio da abertura não geográfica, mas existencial: “cada irmã ou cada irmão que sofre, abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país” (FT, n. 97). O amor deve atingir também os “exilados ocultos”, as pessoas com deficiência. Podemos viver a harmonia e a paz, “sem a necessidade de sermos todos iguais” (FT, n. 100). No próprio país não se pode “olhar para a sua gente com desprezo, estabelecendo na própria sociedade categorias de primeira e segunda classe, de pessoas com mais ou menos dignidade e direitos” (FT, n. 99). Este, sem dúvidas, não é o ensinamento do Bom Samaritano. Este, “livre de todas as etiquetas e estruturas, foi capaz de interromper a sua viagem, mudar os seus programas, estar disponível para se abrir à surpresa do homem ferido que precisava dele” (FT, n. 101). Que tipo de reação poderia provocar esta narração na sociedade com crescente número de pessoas que se fecham em si mesmas? De fato, “o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer” (TF, n. 105).

Todo ser humano tem o direito fundamental de viver com dignidade. Para isto, “há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância” (FT, n.106). Todos, investir nos mais fracos e lentos, para que possam crescer na vida. Se o lugar onde a pessoa nasceu é pobre, é preciso haver diferenciação para os que mais precisam, pois a “fraternidade universal” (FT, n. 110), só será possível quando nosso sistema econômico-social “ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada” (FT, n.110).

Enfim, fala da “função social da propriedade” (FT, n.118-120). Cita São João Paulo II: “Deus deu a terra a todo gênero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém” (Centesimus annus, n.31). A tradição cristã sempre reconheceu que a propriedade privada não tem um valor absoluto. Assim fala Francisco: “O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal do bens criados, e isto tem consequências muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade” (FT, n.120). O grande problema, conclui o Papa, é quando “o direito secundário se sobrepõe aos prioritários e primordiais” (FT, n.120). Também recorda que este direito é universal, não é definido por fronteiras, pois, “é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pela fato de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, de por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento” (FT, n.120).

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

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