Sal da terra e luz do mundo

A Liturgia da Palavra dos últimos domingos se desenvolveu a partir do capítulo seis do Evangelho de João. A multiplicação dos pães e peixes desencadeou um amplo diálogo. Progressivamente Jesus vai provocando os interlocutores a tomarem posição, isto é, crer Nele ou rejeitá-lo. Isto fica evidente na conclusão dos fatos, que é o texto deste domingo (Jo 6,60-69). “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” Jesus ainda provoca: “Isto vos escandaliza?” Depois tem o registro, “a partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele”.

Jesus volta a perguntar, mas desta vez aos doze apóstolos. “Vós também vos quereis ir embora?” Simão Pedro fala em nome do grupo: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”. Os apóstolos sentem a exigência do seguimento, mas tem clara convicção de que estão seguindo o mestre certo, pois ele os está levando por um caminho de vida e salvação.

Através do mês vocacional a Igreja exorta os fiéis a viverem seu batismo. No dia do batismo aconteceu a profissão de fé em Deus. O batizado disse que seguiria o Senhor e viveria orientado por suas palavras de vida. Este domingo lembramos a vocação laical. Somente um pequeno número de batizados vivem a vocação como diáconos, padres, bispos e religiosos. A imensa multidão dos fiéis são leigos. Eles estão presentes em todos os setores da sociedade.

Como a adesão a fé exige liberdade, cada batizado, no cotidiano, vai manifestando a sua opção que pode ser “voltar atrás e não andar mais com Jesus e a Igreja” ou dizer “a quem iremos Senhor”. A partir do modo de agir de Jesus e de seus ensinamentos percebe-se claramente que não faz de seus seguidores fanáticos e intolerantes. Após proclamar as bem-aventuranças, Jesus diz aos presentes. “Vós sois o sal da terra”; “Vós sois a luz do mundo”. É o modo como deseja que os seus seguidores vivam nos mais amplos setores do mundo. Em ensinamentos recentes do papa e dos bispos do Brasil, foi reafirmada esta orientação no documento “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na Sociedade: Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14).

“Vós sois o sal”. O sal dá sabor e preserva da corrupção; no contexto bíblico é símbolo da sabedoria e amizade. A pessoa e a comunidade são sal quando possuem o sabor das bem-aventuranças, o sabor de Cristo. O sal como preservação da corrupção garante a originalidade dos ensinamentos do mestre. Ser sal da terra revela que a identidade do cristão não se restringe à existência pessoal, ao nível interno da Igreja, mas está aberta a cada ser humano e à toda terra, para gerar um ambiente de fraternidade e amizade social.

“Vós sois a luz”. Os primeiros versículos bíblicos falam que a luz é o início da criação. A luz é vital para os seres vivos. Quem sai de Cristo é luz, pois Ele é a luz do mundo. A identidade do cristão é transparente. Os que nascem de Cristo no batismo são por ele iluminados. São chamados filhos da luz. E o que é iluminado, por sua vez ilumina os outros.

É luz do mundo e não somente de um ambiente restrito e interno. Aquilo que dá sabor à terra, ilumina o mundo, fazendo-o ver a beleza. A palavra grega “cosmos” significa ordem, estrutura, beleza, harmonia. Todos os ambientes desordenados, conflitados tornam-se feios. Iluminados podem voltar a ter harmonia e beleza.

Ser sal e ser luz é a presença singela e discreta dos fiéis leigos e leigas nos mais diversos ambientes da sociedade. Também é uma presença forte. Pois, como é impossível não perceber o sal na comida e a luz na escuridão, assim o cristão não pode passar desapercebido.

Dom Rodolfo Luiz Weber – Arcebispo de Passo Fundo

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