Primeiro caso de Covid-19 no Brasil completou 150 dias

O primeiro caso da Covid-19 no Brasil foi registrado oficialmente no dia 26 de fevereiro, em São Paulo. O homem de 61 anos deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein, um dia antes, com histórico de viagem para Itália, região da Lombardia. Na época, pelo menos mais 20 casos suspeitos eram monitorados pelo Ministério da Saúde, a maioria com relatos de viagem para o exterior. Mais de 150 dias se passaram e atualmente o País já passou a marca de 2 milhões de casos e 86,4 mil mortes em decorrência da doença.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Fernando Spilki, o cenário não era completamente inesperado, em se tratando do número de casos e de óbitos, para um país com dimensões continentais como é o caso do Brasil. “Isso é devido a uma série de fatores, o primeiro elemento seria a desigualdade social e o acesso à saúde”, afirma. Segundo Spilki, a situação do Brasil pode ser comparada à de outros países populosos como os Estados Unidos, onde há contexto similar. “Essa desigualdade crônica é um fator importante que acompanhamos no dia a dia, é um complicador e temos um problema de gestão também que é definidor para essa crise”, acrescentou.

Sobre isso, Spilki reitera que a falta de um acordo específico entre as diversas esferas de governo e uma certa recusa na aceitação do posicionamento dos pesquisadores sobre a necessidade de um bloqueio total, provavelmente agravou ainda mais a pandemia no País. “Indicávamos que lá no início deveria ter sido feito, de fato, um sistema de restrição de circulação adequado. As pessoas lembram muito das duas ou três semanas em março, mas de forma alguma nem aquilo seria suficiente. Em nenhum momento no brasil tivemos um movimento de restrição de movimentação que bloqueasse entradas nas regiões nacionais quando o vírus estava circulando em níveis ainda muito baixos”, comentou.

Além disso, Spilki comparou com o contexto de outros países, como a Itália e a Alemanha por exemplo, onde os cidadãos precisavam de autorização para sair de casa e também tinham um limite para ir ao mercado, por exemplo. “Isso fez com que esses países tenham tido epidemias literalmente com a metade do tamanho desse prazo que estamos vivendo de 150 dias, que é duas ou três vezes mais do que enxergamos do período de contenção da primeira onda em outros lugares do mundo”, reiterou. De certa forma, no entendimento de Spilki a não observância do melhor aconselhamento científico, seja pelo governo, seja pelo setor produtivo, e seja pela própria sociedade, levou o Brasil a essa situação. “Foi um acúmulo de erros que estendeu duramente a pandemia no território nacional e nos levou a esses números terríveis em termos de doentes e de óbitos, além de uma hecatombe na economia, que poderia estar minimizada”, enfatizou.

Outro fator que pode ter sido decisivo no desenrolar da pandemia da Covid-19 no Brasil, segundo Spilki, foi a falta de agilidade no controle da transmissão do vírus lá no início. “Houve falta de controle no sentido de fazer o diagnóstico de maneira inteligente e estratégica. O que eu quero dizer é diagnosticar os indivíduos que estavam doente, rastrear os contatos, quarentenar essas pessoas, deveria ter sido feito de maneira muito forte no início e deveria continuar sendo feito. Essa é a maneira adequada de usar um número de testes restrito, o que acontece no mundo inteiro”, reforçou, acrescentando que o que tinha que ter sido feito, em termos de prevenção, na prática não aconteceu.

O controle de uma pandemia como essa, para Spilki, exige recursos financeiros de reserva sendo distribuídos rapidamente, recursos financeiros e reservas das empresas e das famílias, o que não acontece no Brasil. Exigiria solidariedade e uma coordenação de discurso e ação, não só da esfera pública, mas das empresas e também do cidadão. “E isso é o que nos falta. Passados 150 dias ainda temos uma não crença por parte da população do tamanho do problema. É incrível que contra todas as evidências, nós estejamos trabalhando dessa forma”, declarou.

Para os próximos 150 dias, Spilki assinalou que podemos ter uma diminuição na curva de transmissão e consequentemente no número de óbitos, mas isso não significa que o “problema está resolvido”. Será necessário, nos próximos meses, que a população continue atenta para o surgimento de novas ondas da doença. “Um retorno maior das atividades vai continuar exigindo muita disciplina, as pessoas não poderão pensar que o desafio simplesmente passou”, destacou. Com relação à possibilidade de distribuição da vacina, Spilki lembrou que é preciso trabalhar com a ideia de que uma vacina só será efetivamente distribuída no primeiro semestre de 2021, mesmo que comece a ser fabricada ainda este ano.

“Já existem evidências muito fortes que vamos precisar de pelo menos duas doses da vacina e ainda assim vamos ter que ver o tamanho do desenvolvimento dessa imunidade e como ela se comporta em termos de população”, reforçou. Apesar de declarar que não é possível esperar que a pandemia esteja totalmente superada no ano que vem, Spilki disse que, para que tenhamos uma situação melhor nos próximos anos até alcançar uma normalidade, será necessário que a vacina tenha efeitos muito bons, mas que também é possível que essa imunização precise ser realizada anualmente, como acontece com a vacina da gripe.

Correio do Povo

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