Prejuízo chega a 50% na safra trigo no Norte do RS

A colheita do trigo iniciou na região, nas proximidades de Não-Me-Toque, Selbah, Palmeira das Missões e Tapera. Entretanto, depois de amargar prejuízos com a safra de verão por causa da prolongada estiagem, os agricultores da região se deparam com mais uma frustração. Pelo levantamento preliminar da Emater, as perdas chegam a 50% na safra de trigo. Além da queda em produtividade, a qualidade do cereal também é baixa e grande parte terá que ser destinada à ração.

O agrônomo da Emater Regional de Passo Fundo, Cláudio Dóro comenta que até o dia 25 de setembro as lavouras estavam bem conduzidas, com bom padrão e potencial produtivo. Os agricultores estavam e esperançosos que teriam uma safra boa, até porque o trigo tem bom preço e liquidez – condição que não ocorre com grande facilidade. “O quadro era favorável, mas no dia 26 de setembro, o cenário mudou. A formação de geada provocou o inicio dos problemas, que se seguiram com chuvas em excesso, queda de granizo e vendavais. E hoje estamos confirmando o que estávamos prevendo: produtividade baixa e qualidade ruim”, diz.

A produtividade média esperada era de 2.562 quilos por hectare ou seja, 43 sc/ha, apesar de ser um pouco abaixo da obtida na safra passada, que foi a melhor da história, ainda eram consideradas boas. Porém, o que estamos verificando são lavouras com perda total, outras com produtividades de 5 sacos por hectare, outras com 15 sc/ha, 20sc/ha e 30sc/ha até 50sc/ha – mas este último são raros os casos. “Pelo que estamos percebendo com o inicio da colheita e pelos Proagros que estão sendo realizados, estimamos que a quebra seja em torno de 50%, mas não é nada oficial ainda. Mas podemos afirmar que o estrago foi grande”, diz Dóro.

Ele comenta que os agricultores vieram com grandes prejuízos da safra de verão e as apostas eram na safra de inverno, tanto é que as áreas cultivadas com trigo, cevada, canola e aveia foram ampliadas este ano. A esperança era fazer caixa neste momento, mas está se chegando ao fim do ano com mais prejuízos ainda. “E essa condição não é favorável somente para o agricultor, mas para toda a economia”, acrescenta o agrônomo.

A partir de agora, as apostas são na safra de soja, até porque a de milho teve leve redução e, onde foi semeado no cedo, houve necessidade de replantio por causa da geada. “O mercado e clima são fatores incontroláveis e atualmente os preços de todos produtos agrícolas estão bons, mas o que está limitando é o clima”, aponta Dóro.

Hoje o preço de pequenos lotes de trigo balcão é de R$ 30,00 de boa qualidade, tipo 1 classe pão e com produtividade alta. Mas com estas produtividades que estão sendo obtidas na região, o produtor não consegue ter margem de lucro, muito menos paga o custo de produção. “Tanto é que os produtores estão acionando Proagro ou seguro agrícola particular, como uma maneira de pelo menos diminuir os prejuízos. Não que o seguro vai cobrir 100% das despesas, mas ameniza o prejuízo”, explica.

Qualidade ruim
Hoje o trigo para ter valor comercial precisa ter pH superior a 72, e o que está se observando é pH entre 68 a 65, enquanto que no ano passado era de 78 até 84. Por conta disso, o produto não poderá ser destinado à industria, mas sim para a ração e, neste caso, a remuneração do produtor não é alta, em torno de R$ 21 a R$ 24 a saca, dependendo da qualidade.

Alta liquidez

Os estoques mundiais baixaram e ocorreram problemas com o trigo na Ucrânia, Austrália, EUA e as cotações no mercado internacional do trigo estão aquecidas, o dólar em alta dificulta as importações e o trigo chega mais caro no Brasil. Diante disso, os moinhos apresentaram interesse de compra do produto interno e seria o momento do produtor vender, segundo o agrônomo. Consequentemente, o governo não iria comprar a maior parte, como ocorreu nos últimos três anos. O trigo tem liquidez, mas a dificuldade vai ser de abastecer o mercado devido a qualidade e produtividade baixa.

No momento, o produtor tem duas preocupações: colher e depois analisar como fará para pagar as dívidas. A colheita na região segue até o dia 20 de novembro, quando a área será liberada para o plantio da soja. Na região foram cultivados 168 mil hectares com o cereal, um aumento de 6,5% em relação a safra passada.

Diário da Manhã – Passo Fundo

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