Olhar para Cristo e o ser humano

Precisamos muito de uma antropologia teológica com base na Sagrada Escritura. Para isto, ajudam nossas catequeses e nossa espiritualidade. Uma catequese adulta se dá na vida de uma pessoa madura. Ela tem um ponto de referência, que precisamos abordar, Cristo, o Filho de Deus. Tem um olhar para a realidade das pessoas, o ser humano, que é imagem de Deus. Contempla a fé cristã de maneira madura, integral, conforme nos ensina a Igreja.

Uma catequese adulta, madura, tem seu olhar sempre a partir de Jesus Cristo. Nele encontramos as respostas para nossas realidades humanas, pessoais e sociais. Nele todo o ser humano encontra-se e não se trata unicamente de olhar para o Filho, o nosso Salvador, fonte de nossa fé cristã. Isto é muito importante. É o centro de nossa fé. Nele fomos salvos de nossos pecados. Contudo, a questão é ver, intuir, interiorizar o jeito de ser de Jesus. Ele tem um modo próprio de ser e de viver. Produz não somente uma ideia, mas, sobretudo, um modo de viver, uma realidade que deve ser vivida sempre. Nele, temos a alegria da riqueza de Deus, que não se apaga mais.

Em Cristo temos uma riqueza grande, ao se fazer misericordioso. Ele sai de si para ir ao encontro dos outros e não ficou, absolutamente, observando unicamente o que era o certo. Foi com amor que ele sofreu na cruz, até o fim: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Percebemos nessa frase o estilo de vida do Cristo, o seu modo de amar. Ele lava os pés dos discípulos. O seu amor o leva a fazer também esse serviço, numa época em que essa tarefa era só dos escravos. Jesus está se preparando para a tragédia do Calvário, a fim de dar aos seus e a todos, além de suas extraordinárias palavras e seus milagres, de todas as suas obras, a sua vida. Eles deviam ter paz e alegria na Vida que não tem fim. E Jesus se entrega à morte, com seu grito de abandono do Pai, até o ponto de poder dizer, no fim: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Em nenhum momento de sua vida, vemos que Ele não se encontra com os discípulos, aliás tomados do meio do povo, e de todo o povo de Deus. Nele encontramos um jeito de ser, um modo de ver as coisas, na sua relação com o Pai de todos e no seu amor imenso com todos nós. Esta compreensão, leva-nos a ter “os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fl 3,5): nunca falar mal dos irmãos e amar a Igreja que formamos nele, pelo nosso batismo.

Verificamos um “notável excesso antropológico” (Francisco), do ser humano atual. “Não há ecologia sem uma adequada antropologia” (LS, n. 118). Ainda continua nosso Papa Francisco a dizer: “O ser humano não é plenamente autônomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. […] Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si” (LS, n. 105). Temos uma nítida identidade e vocação criatural, somos filhos amados de Deus. Nossa orientação não é, em primeiro lugar, política, mas é cristã, para Cristo Jesus, e dele para os irmãos. Deste princípio, temos os desdobramentos práticos. A partir dele, somos uma só família, um só corpo: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta

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