O rosto sofredor do humano

Conseguimos imaginar a dor e os sofrimentos de tantas pessoas! Certamente, pela pandemia, com dificuldades até de sepultar, nos perguntamos sobre o sofrimento do rosto humano. Sabemos que, na do Facebook e do Instagram não passam estes sofrimentos. Aliás, quando alguém não está bem, nem coloca sua foto lá. Fica para si, guarda dentro de si, no seu interior. Ainda, sem a pandemia e sem os sofrimentos habituais do ser humano, temos momentos mais difíceis, mais complicados. Estes, precisam de alguém que nos escute, que perca seu tempo conosco, que nos diga: vai que a vida é assim mesmo.

Muitas vezes, nas confissões ou visitando as pessoas, sentimos como Jesus, nas vísceras, com misericórdia este sofrimento. Bem nos disse tantas vezes nosso Papa Francisco que não é possível sermos cristãos e esquecermos os menores, as crianças e os que não são nascidos ainda, e os mais idosos, que não tem o que fazer. Olhemos o grande número dos que procuram o padre ou o bispo para se confessarem, sobretudo pela misericórdia diante do aborto. É preciso a proximidade e a misericórdia, de todos os batizados. Sabemos que muitos endureceram seu coração por causa disso. Já não são mais queridos e amados, são curtidos pela vida, pelos dias que viveram. Tanta paciência com estes! Às vezes, eles recebem ajuda e deixam de ser gratos. Afinal, eles não tem direito de serem também pessoas felizes?

E nós, os cristãos, sabemos que em torno do sofrimento dos outros, joga-se algo muito importante: a nossa relação com Deus, a nossa fé nele, o irmão que encontramos. E, claro, nossa salvação está diante daquele que sabemos que é imagem de Deus. Temos a convicção de que o sofrimento tem algo a nos dizer do homem e, para quem quer escutar, muito de Deus. Sabemos que nós, os católicos, temos esta certeza: a caridade, vivida como algo importante, é uma dimensão de nossa fé. Sem ela, não seremos salvos. Sem a caridade, não adiantam unicamente as orações, toda a eucaristia. Sabemos que ela é algo que não se resume na vida cristã, ela é maior pois brota de um olhar para Jesus Cristo e, nele, para os irmãos.

Saber escutar e dar tempo para os que sofrem. É uma pena que são tantas as pessoas que não conseguem viver a presença de Deus com as pessoas que mais precisam. É a escuta do sofredor. Escutar é dar tempo para a outra pessoa ser ela mesma, fale de si. Tempo, significa a vida toda ou, ao menos, uma hora. Na escuta, a outra pessoa se sente bem, acolhida, amada, e tem a possibilidade de falar o que para mim não é o mais importante. Na verdade, ele humaniza o homem, faz ser o que ele sempre quis ser. A oração, faz o coração se voltar para Deus e confiar nele. Nele somos sempre gratos, mesmo quando tudo é difícil. Enfim, uma cultura do olhar, do ver humano, que não aprisiona, que respeita sempre.

Desde o ser criado, à imagem de Deus, somos na comunhão. Ninguém consegue nada sozinho. Precisamos todos uns dos outros. Jesus Cristo, que viveu sua vida para fazer o bem, nos diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para curar os cegos” (Lc 4,18). Ele veio para dois grandes e inseparáveis motivos: amar os irmãos e levá-los ao céu! Veio curar, e foram tantas as curas, e para conduzir as pessoas a Deus, para a vida plena nele. Seu segredo estava no imenso amor com que viveu sua vida, na relação com Deus Pai e o Espírito Santo. Ser cristão é tornar-se verdadeiramente humano, seguindo Jesus Cristo. Mesmo na hora da sua entrega total, na morte de cruz, ele sabia em quem tinha confiado: “Pai em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

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