O que esperar da campanha eleitoral

Entenda o que deve marcar o pleito deste ano

Prepare-se para uma enxurrada de números e teses sobre a situação econômica brasileira. E não se surpreenda diante de uma guerra de estatísticas. Especialistas em marketing, consultoria e ciência política não têm dúvidas: temas ligados ao bolso do cidadão dominarão a disputa pelo Palácio do Planalto nos próximos três meses.

Esteja pronto, também, para ver concorrentes pisando em ovos ao abordar assuntos delicados, relacionados às manifestações de junho de 2013. Ou mesmo em saia justa, às voltas com outro tópico indigesto para alguns (em especial petistas e tucanos, protagonistas de dois mensalões): a corrupção.

— Tentativas de colar os escândalos em Dilma e Aécio virão, mas não vão dar resultado. O eleitor entenderá como oportunismo — afirma a cientista política Rita de Cassia Biason, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Crítico e exigente
No Rio Grande do Sul, a disputa pelo governo do Estado terá outro foco. Recairá principalmente sobre a crise nas finanças públicas, um problema à espera de solução há décadas, gestão após gestão.

Os aspirantes ao Palácio Piratini terão de se esmerar para convencer a população. A superficialidade de propostas, avalia o professor Gaudêncio Torquato, da Universidade de São Paulo (USP), será posta à prova em outubro.

— Este pleito vai mostrar que o eleitor está mais crítico e exigente. Ele não vai mais comprar gato por lebre — diz Torquato.

O DEBATE NACIONAL

Inflação
Dilma tentará demonstrar aos eleitores que a inflação continua sob controle. Ela vem dizendo que os números estão dentro da meta há 11 anos e que em 2014 não será diferente, mas os adversários farão de tudo para provar o contrário. Esse deve ser um dos temas mais debatidos na campanha.

Crescimento econômico
Em junho, o Banco Central revisou para baixo a previsão de crescimento do PIB em 2014, de 2% para 1,6%. Dilma destacará o saldo positivo em relação ao desempenho de outras nações e as medidas de estímulo à economia. A oposição centrará as críticas na política econômica.

Corrupção
Mensalão tucano, mensalão petista, cartel no governo paulista, denúncias envolvendo a Petrobras. Não há dúvidas de que tudo isso vai entrar na campanha, mas ainda não se sabe ao certo como, já que as suspeitas envolvem diferentes partidos, incluindo PT e PSDB. A discussão pode acabar em baixaria.

Tamanho do Estado
Com quantos ministérios se faz um governo? Existe um número ideal? No final da administração de Fernando Henrique Cardoso, eram 24 pastas. Atualmente, são 39. Se voltarmos mais no tempo, Getúlio Vargas tinha 10. O inchaço progressivo da máquina pública será alvo de debate e de comparações.

Manifestações de junho
O movimento que mobilizou milhares de brasileiros em 2013 e pegou os políticos de surpresa vai aparecer na campanha. Candidatos se apresentarão como representantes da “voz das ruas”, e demandas levantadas nas manifestações, principalmente em relação a transporte público e mobilidade urbana, voltarão com tudo.

DEBATE ESTADUAL

Finanças públicas
A situação financeira do Estado, crítica desde os anos 1980, será um dos temas predominantes. Em 2013, o déficit nas contas públicas chegou a R$ 1,39 bilhão. Tarso defenderá o atual modelo de gestão, mas terá de rebater as críticas de adversários como Ana Amélia, que propõe o enxugamento da máquina.

Dívida com a União
O Estado deve R$ 40 bilhões à União, um montante que cresce desde 1970. Só em 2013, foi obrigado a desembolsar R$ 2,7 bilhões por conta disso. Tarso lidera uma tentativa de renegociação dos Estados, mas a União mantém a proposta em banho-maria, no Senado, por temer que prejudique a economia.

Piso do magistério
O pagamento do piso nacional do magistério vai dar o que falar. Tarso será criticado por descumprir a lei, mas seus opositores dificilmente vão prometer o que também não poderão cumprir — pelo menos não sem mudanças no plano de carreira. Em sua defesa, Tarso destacará o reajuste de 76,6% aos professores.

Infraestrutura
A situação das estradas, o fim de concessões privadas e a criação da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), alvo de muita polêmica, entrarão na pauta. Tarso destacará o cumprimento da promessa de abrir cancelas, em especial em Farroupilha, mas terá de explicar as dificuldades para conservar as rodovias.

Segurança
O tema promete, mais uma vez, confrontar os candidatos. O atual governo conseguiu reduzir os latrocínios (roubos com morte) no primeiro trimestre deste ano em 35%, mas enfrenta questionamentos em relação ao efetivo da Brigada Militar. A prefeitura da Capital, por exemplo, pede o incremento da tropa em 2 mil servidores.

DESCONTRAÇÃO NO CONTATO COM O LEITOR
Não espere uma campanha tradicional e sem graça. Até outubro, você testemunhará uma invasão de selfies de políticos na sua timeline e será confrontado com montagens virtuais (os famosos memes) cheias de criatividade.

Na TV, a novidade ficará por conta do foco na naturalidade. Os programas tentarão mostrar os candidatos como eles são, sem o excesso de artificialidade de anos anteriores. A propaganda na telinha começa em 19 de agosto.

— As pessoas já não aceitam mais a linguagem pasteurizada — sintetiza Gil Castilho, presidente da Associação Latino-americana de Consultores Políticos.
Na internet, a engenhosidade e a capacidade de interagir com as pessoas — inclusive respondendo a críticas — serão a tônica. Se você tem smartphone, prepare-se para o assédio: aplicativos como o WhatsApp deverão ser utilizados para angariar votos, tanto quanto Twitter, Instagram e Facebook, cada um a sua maneira.

— Os políticos estão se dando conta de que a internet não é uma coisa só. Quem souber usar as diferentes ferramentas que ela oferece do jeito certo vai se dar melhor — afirma Carlos Manhanelli, da Associação Brasileira dos Consultores Políticos.

Na onda das selfies
Mania nas redes sociais, os autorretratos feitos com o celular tendem a se difundir nas eleições. Com smartphones em punho, candidatos aproveitarão comícios, encontros com famosos e “gente do povo” e até momentos de intimidade para fazer fotos descontraídas na tentativa de ganhar popularidade.

Criatividade nos memes
Piadas, paródias e deboches virtuais feitos a partir de montagens sobre fotos ou imagens animadas (os GIFs) se espalharão na rede. Mas não espere apenas alto nível. Os memes serão usados a favor dos candidatos (como estratégia para torná-los figuras simpáticas ao eleitorado), mas a baixaria estará presente.

Informalidade na tv
Os marqueteiros apostam na busca pela naturalidade na propaganda. Existe a percepção de que o eleitor cansou da espetacularização, das falas visivelmente decoradas e do visual artificial. A ideia é mostrar políticos reais. A publicidade já tem utilizado produções que reproduzem o tom doméstico e amador.

Política no WhatsApp
Empresas já estão oferecendo serviços e pacotes (com números de telefone) para ajudar os partidos a utilizarem o WhatsApp (aplicativo para envio de mensagens pelo celular) a favor de seus candidatos. O aplicativo servirá principalmente para mobilizar a militância, mas também ajudará na comunicação direta com os eleitores.

Instagram na veia
Rede social preferida de quem curte fotografia (e cuja marca são as fotos quadradas, tipo Polaroid), o Instagram vai se transformar em um palanque virtual, competindo palmo a palmo com o Facebook. Será usado para compartilhar os momentos de campanha e estimular o relacionamento com os eleitores.

Telemarketing sem voz
Você poderá receber mensagens via SMS e aplicativos como o WhatsApp, mas pelo menos o sistema via ligações está extinto. Em fevereiro deste ano, o TSE decidiu proibir a prática de telemarketing nas eleições. Os ministros consideraram inoportunas as chamadas de voz com mensagens destinadas a angariar eleitores.

Os candidatos ao Piratini

Ana Amélia Lemos (PP)
-Vice: Cassiá Carpes (Solidariedade)
-Senado: Simone Leite (PP)
-Coligação: PP, PSDB, Solidariedade e PRB

Edison Estivalete Bilhalva (PRTB)
-Vice: Hermes Aloísio Silva de Souza (PRTB)
-Sem candidato ao Senado

Humberto Carvalho (PCB)
-Vice: Nubem Medeiros (PCB)
-Sem candidato ao Senado

João Carlos Rodrigues (PMN)
-Vice: Roberto Wilodre (PMN)
-Senado: Ciro Machado (PMN)

José Ivo Sartori (PMDB)
-Vice: José Paulo Cairoli (PSD)
-Senado: Beto Albuquerque (PSB)
-Coligação: PMDB, PSD, PSB, PPS, PHS, PT do B , PSL e PSDC

Roberto Robaina (PSOL)
-Vice: Gabrielle Tolotti (PSOL)
-Senado: Júlio Flores (PSTU)
-Coligação: PSOL e PSTU

Tarso Genro (PT)
-Vice: Abgail Pereira (PC do B)
-Senado: Olívio Dutra (PT)
-Coligação: PT, PTB, PC do B, PROS, PTC, PPL e PR

Vieira da Cunha (PDT)
-Vice: Flávio Gomes (PSC)
-Senado: Lasier Martins (PDT)
-Coligação: PDT, DEM, PEN, PSC e PV.

(Juliana Bublitz – Clicrbs)

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