O homem que iniciou tudo: Fittipaldi celebra 40 anos do primeiro título na F-1

– Boa tarde, campeão. Você então está abrindo mais uma porta para o automobilismo brasileiro?

A pergunta na conversa por telefone com Emerson Fittipaldi, 65 anos, remete a duas coisas. O “campeão” remonta a uma queixa dele em relação à falta de preservação dos ídolos e de suas conquistas no nosso país.

– Só no Brasil o cara é chamado de “ex-campeão”. Um título, o piloto nunca perde – lamenta Emerson. – O cara pode ser um ex-piloto, mas sempre será campeão.

Quanto à porta aberta, tem a ver com a descoberta do caminho das pedras para os nossos pilotos na F-1, desbravado pelo Rato em sua ida pioneira para a Europa no final dos anos 1960. Fora da principal categoria do automobilismo até 1970, o Brasil conquistou oito títulos nos 21 anos seguintes, dois com Fittipaldi, três com Nelson Piquet (1981, 1983 e 1987) e mais três com Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991). O nosso GP entraria no calendário em 1973 e jamais sairia.

Tão logo assumiu a liderança do campeonato de 1972, depois do GP da Espanha, Emerson abriu outras portas, com a Rede Globo passando a transmitir as corridas ao vivo, apresentando, assim, a F-1 para os brasileiros, além de promover uma corrida amistosa em Interlagos para homologação do GP do Brasil.

Emerson não perdeu mais a ponta da tabela de pontuação em 1972, deixando para trás o escocês Jackie Stewart e o neozelandês Denny Hulme. Chegou à consagração no dia 10 de setembro, em Monza, o mesmo palco da 13ª etapa do Mundial deste ano, prevista para as 9h de domingo, 40 anos depois. O bicampeão lembra de uma época da F-1 ainda romântica, improvisada e perigosa:

– Existia amizade entre os pilotos. Mas tínhamos uma sensação amarga, a gente olhava para os lados e não sabia se iria ver um amigo novamente depois da corrida. O perigo era permanente.

Carro destruído na semana decisiva
A poucos dias dos primeiros treinos livres para o GP da Itália de 1972, o caminhão da equipe Lotus sofreu um acidente na estrada, destruindo o principal carro de Emerson. A solução foi buscar na fábrica, na Inglaterra, o modelo utilizado pelo brasileiro na sua primeira vitória, dois anos antes. A 15 minutos da largada, outro susto, com o tanque vazando combustível quando estava alinhando no grid. Sanados os problemas, Emerson veria a bandeira quadriculada na frente de todos, colocando o Brasil no mapa da F-1.

Consagrado na Europa, Emerson abriria depois as portas da Indy e das 500 Milhas de Indianapolis. Ganhou outro título e venceu duas vezes a corrida mais milionária do planeta, além de recuperar sua fortuna – perdida na aventura com a Copersucar, a equipe brasileira de F-1 que Rato e o mano Wilsinho fundaram em 1975 e fecharam em 1982.

Agora, em referência à pergunta inicial, o eterno bicampeão leva a Interlagos os carros das 24 Horas de Le Mans para a quinta etapa do FIA World Endurance Championship, mundial de marcas recriado pela Federação Internacional de Automobilismo neste ano.

– Estarão aqui (no dia 15) inclusive os híbridos da Audi e da Toyota que correram em Le Mans neste ano. Em reta, são até mais rápidos que os F-1 – diz Emerson, sem esconder a satisfação por estar abrindo mais uma porta.

Otimismo para o futuro do automobilismo brasileiro
Invariavelmente otimista, Emerson Fittipaldi não vê o momento ruim dos pilotos brasileiros na Fórmula-1 como algo irreversível, como muitos preconizam. Para o bicampeão, tudo na categoria vive de ciclos. O aberto por ele se estendeu até 1994, com a morte de Ayrton Senna.

– Apesar da tradição da Alemanha nas pistas, o país só foi ganhar um campeonato em 1994, 22 anos depois do Brasil – lembra Emerson. – E o ciclo dos alemães, com muitos pilotos no grid, só veio após o Schumacher ter vencido.

A França, outro país com fortes raízes no automobilismo, teve um único ciclo, com Alain Prost e seus quatro títulos:

– Antes e depois do Alain, nada. Mas isso não quer dizer que não vá ter um francês se destacando logo adiante.

Para o campeão de 1972, com a Lotus, e de 1974, com a McLaren, Felipe Massa e Bruno Senna estão enfrentando situações completamente diferentes no momento, e nada têm a ver com o país estar passando por uma entressafra na F-1:

– O Felipe ainda não venceu totalmente o trauma de seu acidente (na Hungria, em 2009), mas já está se recuperando. Alguém que já foi vice-campeão do mundo não pode ser desprezado. Ele já está mais adaptado ao estilo do carro e dos pneus deste ano. O Fernando (Alonso) conseguiu isso mais rápido, mas não dá para comparar um com o outro. Comparar no automobilismo é sempre errado. Já o Bruno depende da performance do carro.

Segundo Emerson, um novo ciclo do Brasil “depende apenas do tempo, e já temos bons candidatos lá fora para entrar na F-1, com boas chances”.
Como pilotos promissores, Emerson lembra de imediato do baiano Luiz Razia, 23 anos, e do brasiliense Felipe Nasr, 20 anos, ambos na disputa pela GP2, última instância antes da F-1, e o gaúcho César Ramos, 23 anos, que tenta renovar patrocínios para continuar na Word Series Fórmula-Renault na Europa.

Da Nascar, nos EUA, vem a lembrança de seu próprio neto Pietro Fittipaldi, 16 anos, nascido em Miami, campeão no ano passado da divisão Limited Late Model, e do gaúcho Miguel Paludo, 29 anos.

Fittipaldi e Porto Alegre
Logo no início da entrevista, Emerson Fittipaldi queria saber como estavam as coisas no Rio Grande do Sul, mais especificamente em Porto Alegre:

– Me falaram que está quente aí. O inverno gaúcho não é mais o mesmo.
Talvez o bicampeão estivesse pensando na noite das 12 Horas de Porto Alegre de 1968, com chuva e frio em pleno verão. Ao lado do irmão Wilsinho, o futuro bicampeão acabou vencendo com um Fusca a última edição da tradicional prova nas ruas da zona sul da Capital.

No início da corrida, com muitos carros no traçado e com visibilidade precária, o amigo José Carlos Pace não conseguiu evitar uma batida na traseira de Emerson, destruindo o distribuidor do Fusca. Fittipaldi não teve dúvidas: saiu correndo a pé em direção aos boxes para, depois de muito “choro”, conseguir emprestado uma peça para substituir a inutilizada.

A dupla de irmãos perdeu duas voltas em meio ao conserto, mas conseguiu se recuperar e chegar ao meio-dia como o Fita Azul, o vencedor geral das 12 Horas – agora, disputadas em Tarumã.

Em seguida, Emerson dava início a sua aventura na Europa, rumo à Fórmula-1.

Depois de muitos sacrifícios e solidão na Inglaterra, sem as facilidades de comunicação atuais e com dinheiro contado, Emerson foi se enturmando e participando de campeonatos com carros de fórmulas de acesso ou escola. Até chegar a Colin Chapman e sua poderosa Lotus.

Emerson voltaria muitas vezes a Porto Alegre. Na principal, o desbravador do automobilismo brasileiro desfilou pelas ruas da cidade em um Mustang conversível em comemoração ao seu primeiro título, em 1972. Um dos mais apaixonados por corridas no país, o público gaúcho retribuiu com muito carinho e emoção.

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