O elo entre Dirceu e Valério

Postado em 13 agosto 2012 07:37 por jeacontece
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Os argumentos apresentados pela defesa dos réus no processo do mensalão na semana passada fizeram ressurgir uma personagem esquecida nos últimos anos, cuja importância no caso vinha sendo subestimada por advogados e pelo próprio Ministério Público Federal. A psicóloga Maria Ângela da Silva Saragoça é uma das três ex-mulheres de José Dirceu e o principal elo entre ele, o publicitário Marcos Valério e o núcleo operacional do esquema. É com base nas relações que ela manteve com alguns dos acusados que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, sustenta a tese de que o ex-ministro da Casa Civil comandava a quadrilha de mensaleiros e tirava vantagens pessoais. Foi para Maria Ângela Saragoça que Marcos Valério articulou, em 2003, um empréstimo bastante vantajoso junto ao Banco Rural para que ela pudesse comprar um apartamento no bairro de Perdizes, em São Paulo. Os termos do financiamento foram negociados por Valério com a cúpula da instituição, cujos dirigentes também são réus no processo. Usando sua influência, o publicitário mineiro ainda arrumou um emprego no banco BMG para ajudá-la a pagar as prestações do imóvel. Para mostrar como e em que circunstâncias essa personagem central da acusação vive hoje, a reportagem de ISTOÉ reconstituiu os passos de Maria Ângela desde que ela foi levada para o epicentro do escândalo.

Embora seja discreta, avessa a badalações e aparições públicas, a ex-mulher de Dirceu não se preocupou em se livrar do imóvel que, na avaliação do Ministério Público, representa a principal ligação de Dirceu com Valério. Conforme verificou ISTOÉ, Maria Ângela mora até hoje no apartamento de Perdizes, na capital paulista, de 110 metros quadrados. O Banco Rural afirma que o financiamento de R$ 42 mil em 36 parcelas foi quitado em 18 de dezembro de 2006. No entanto, de acordo com a escritura do imóvel, a quitação teria ocorrido apenas em maio deste ano. Até 2008, ela amortizava as prestações com o salário de R$ 3,2 mil que recebia no BMG como funcionária do setor de recursos humanos.

Demitida do banco naquele ano, Maria Ângela teve que voltar a atender como psicóloga para garantir o seu sustento. Retornou também ao emprego na Universidade Federal de São Paulo, onde faz parte do quadro de funcionários desde a década de 80. De acordo com um funcionário do BMG em São Paulo, a saída de Maria Ângela começou a ser desenhada logo depois que o Supremo recebeu a denúncia do mensalão, em agosto de 2007. Segundo o ex-colega, a presença da psicóloga tornou o ambiente de trabalho insustentável e dificultava o distanciamento do BMG do escândalo. “Todo mundo concordava que ela não poderia mais ser funcionária da instituição. Até porque ela raramente trabalhava”, relata o bancário.

Na Universidade Federal de São Paulo, a ex-mulher de Dirceu recebe atualmente salário bruto de R$ 8,9 mil, mas não aparece para dar expediente. No setor de recursos humanos e treinamento, onde oficialmente está lotada, ninguém a conhece ou consegue localizá-la na lista de servidores. Maria Ângela diz que está licenciada, e agora trabalha em um centro de saúde no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde atende como psicóloga portadores de HIV. O salário de funcionária pública dá a ela um padrão de vida de classe média, mas não atende a todos os seus desejos. Há três anos, José Dirceu precisou ajudá-la a trocar de carro e frequentemente contribui no pagamento das suas contas.

Amigos próximos informam que o ex-ministro da Casa Civil ainda nutre um grande carinho pela ex-mulher. Ela foi casada com José Dirceu na década de 80 e estava com ele em plena campanha da Constituinte. Apesar da temperatura política da época, poucos companheiros de partido do ex-ministro a conhecem de fato. Segundo um deles, ela evitava comparecer às atividades partidárias e passou muito tempo se dedicando a um tratamento de fertilização realizado em Cuba. Logo depois do nascimento da filha, Joana, o casal se separou. Mesmo depois da separação, no entanto, os dois ainda mantiveram uma relação de proximidade e amizade. Quando foi procurada pela reportagem, ela recorreu imediatamente ao ex-marido para perguntar sobre como deveria se comportar. Foi orientada então a manter-se em silêncio para não causar transtornos e atrapalhar a atuação dos seus advogados. Mas, diferentemente do seu comportamento atual, em 2006, Maria Ângela não se calou. E suas declarações levaram à demissão de Dirceu da Casa Civil.

Em depoimento dado à Polícia Federal em 2006, Maria Ângela contou que foi procurada pelo publicitário Marcos Valério alguns dias depois de ouvir do ex-marido que não poderia ajudá-la na aquisição de um imóvel maior. Foi então que Valério não apenas ofereceu-lhe o empréstimo como apresentou o sócio Rogério Tolentino como o comprador do seu apartamento por R$ 115 mil. Tolentino adquiriu o bem sem nunca tê-lo visitado e, mais tarde, disse que o fez para agradar a José Dirceu. Ao longo das diligências e depoimentos, descobriu-se também que o verdadeiro comprador do imóvel de Maria Ângela era o então presidente do Banco Popular, Ivan Guimarães, que não queria aparecer nas negociações.

Apesar de insistir em que tudo foi feito sem o conhecimento do seu ex-marido, tem sido difícil para a defesa de Dirceu convencer a acusação e alguns ministros. Para o relator, Joaquim Barbosa, os favores oferecidos a ela mostram a preocupação que os integrantes do esquema tinham em agradar e beneficiar o então poderoso ministro do governo Lula. As evidências dessas relações são tão inquestionáveis que o experiente advogado de Dirceu, José Luiz de Oliveira, dedicou menos de um minuto para falar do assunto durante a sustentação oral de uma hora que fez no Supremo Tribunal Federal na semana passada. Ao apresentar os argumentos da defesa aos ministros, ele apenas lembrou o depoimento dado por Maria Ângela como testemunha do ex-marido e disse que, como as provas do processo são todas com base em depoimentos, o dela também precisa ser considerado. “Dirceu não tinha conhecimento nenhum deste fato. A grande prova da ação penal são os depoimentos. E a prova testemunhal é toda no sentido da absolvição”, disse ele.

A expectativa de Dirceu é com as próximas fases do julgamento, que na quarta-feira entra na etapa decisiva com o início dos votos dos ministros. A preocupação do ex-homem forte do governo Lula é que a volta dos holofotes à sua ex-companheira deteriore o cenário que ele acredita estar favorável por conta da boa atuação da sua defesa. Dirceu sabe que as negociações entre Maria Ângela e os operadores do mensalão são um obstáculo à sua tentativa de provar que não era o comandante do maior caso de corrupção da história recente do País.

IstoÉ

Postado em 13 agosto 2012 07:37 por jeacontece
15.292.411/0001-75

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