Morre David Frost, o jornalista que emparedou Richard Nixon

Britânico ficou famoso pela série de entrevistas em que o ex-presidente dos Estados Unidos admitiu o envolvimento no escândalo Watergate

Conhecido pela série de entrevistas que realizou com o ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, em 1977, o jornalista britânico David Frost morreu no sábado, aos 74 anos. A morte, comunicada pela família de Frost neste domingo, ocorreu em consequência de um ataque cardíaco, a bordo do transatlântico Queen Elizabeth.

Nascido em 7 de abril de 1939 em Kent, (sudeste da Inglaterra, Frost estudou na Universidade de Cambridge antes de apresentar um programa satírico na BBC. Ele passou a ficar conhecido por sua tenacidade depois de uma polêmica entrevista em 1967 com um criminoso da época. Apresentando programas nos Estados Unidos e no Grã-Bretanha, o jornalista era presença constante dos voos transatlânticos do Concorde e possuía uma rica lista de contatos. Presidentes, primeiros-ministros, celebridades: a lista de convidados famosos para suas entrevistas foi longa durante uma carreira vivida em diferentes redes de televisão (incluindo a BBC, a ITV, e, desde 2006, a Al-Jazeera).

Com seu tom educado e caloroso, ele conseguia poupar seus entrevistados na medida certa, para conseguir depois respostas para questões delicadas. Essa técnica foi utilizada com grande êxito durante a sua série de entrevistas com Richard Nixon, três anos depois da queda do presidente republicano por causa do escândalo de Watergate.

Durante as entrevistas, Frost conseguiu de Nixon um mea-culpa: “Eu decepcionei meus amigos, eu decepcionei o país”, desabafou o ex-presidente. Até então, o político republicano nunca havia admitido sua participação direta na invasão do escritório do Partido Democrata, durante sua campanha para a reeleição, em 1972. A repercussão do episódio, denunciado pelo jornal Washington Post, levou Nixon a renunciar a seu segundo mandato, em 1974. “No fim, eu acho que não estávamos conscientes de que qualquer coisa histórica ia acontecer e que tínhamos ido mais longe do que pretendíamos”, comentou David Frost em 2009 à BBC.

Essas entrevistas renderam uma peça de teatro e, depois, um filme em 2008, Frost/Nixon, no qual Michael Sheen vive Frost ,e Frank Langella interpreta Nixon. O filme foi indicado a cinco estatuetas do Oscar. O longa-metragem destaca como Nixon subestimou seu interlocutor, acreditando que Frost, conhecido à época por seus programas de entretenimento e mais focado no mundo em celebridades, iria lhe proporcionar a chance de se redimir junto à opinião pública. Mas o jornalista, com apoio de um equipe de pesquisadores, muniu-se de muitas provas e indícios e literalmente emparedou Nixon diante das câmeras até a explosiva confissão.

Além de ter entrevistado os últimos oito primeiros-ministros britânicos e os sete presidentes americanos antes de Barack Obama, Frost também recebeu Nelson Mandela, Mikhail Gorbachev, Vladimir Putin, Yasser Arafat, Jacques Chirac, Frederik de Klerk e Benazir Bhutto. Ele também foi o autor da última entrevista concedida pelo último xá do Irã Mohamed Reza Pahlavi.

Fora da esfera política, teve como convidados Orson Welles, Tennessee Williams, Elton John, Woody Allen, Mohamed Ali, os Beatles, Clint Eastwood, Anthony Hopkins, Norman Mailer e Warren Beatty, entre várias outras personalidades.

Casado e pai de três filhos, Frost era conhecido pela sua saudação “Olá, boa noite e bem-vindo”, pronunciada sistematicamente no início de cada programa. O primeiro-ministro britânico David Cameron homenageou um “homem extraordinário, dotado de charme, perspicácia, talento, inteligência e, ao mesmo tempo, caloroso.

— Ele podia ser, como foi comigo, ao mesmo tempo um amigo e um temível entrevistador — disse Cameron.

Frost foi nomeado cavaleiro e recebeu o título de “Sir” em 1993. Ele também escreveu 17 livros, produziu vários filmes e lançou dois canais de televisão, a London Weekend Television e a TV-am.

— Você não poderia escrever uma história da televisão hoje sem mencionar a enorme influência que David teve. Era um dos grandes da BBC e vamos sentir muito a sua falta —declarou o diretor-geral da rede pública britânica, Tony Hall.

(Clicrbs)

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