Mais de 65% das escolas gaúchas ficaram abaixo da média nacional do Enem

O resultado das escolas gaúchas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2011, divulgado esta semana, coloca em xeque o ensino praticado em salas de aula públicas e privadas no Estado.

A listagem de desempenho mostra que 65,8% dos colégios de todas as redes ficaram abaixo da média geral nacional de 519. Especialistas avaliam que, embora a prova não seja utilizada oficialmente para comparações entre regiões, a performance rio-grandense revela deficiências preocupantes.

Enquanto quase sete em cada 10 estabelecimentos gaúchos não alcançaram a média do país, em outros Estados a situação é inversa. No Rio de Janeiro, por exemplo, que apresentou o melhor resultado neste quesito, 70% dos colégios superaram o patamar médio brasileiro. O Ministério da Educação e o governo gaúcho sustentam que, por ser voluntário e permitir a participação de egressos do Ensino Médio formados em qualquer época, o Enem não é o melhor instrumento para comparar a qualidade vigente de sistemas de ensino.

Porém, especialistas como a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora do Enem Roselane Costella sustentam que os resultados anunciados quinta-feira escancaram imperfeições do ensino gaúcho. Uma das principais é a filosofia de ensino baseada em um modelo que o exame nacional despreza: disciplinas estanques, com muita memorização e pouquíssima aplicação prática.

— Em outros Estados, que têm escolas com as melhores médias do Enem, há algum tempo essa filosofia já vem sendo substituída por uma educação mais voltada para o desenvolvimento de habilidades e a resolução de problemas — avalia Roselane.

O Rio Grande do Sul tende a ir mal no teste do Ensino Médio, segundo ela, porque as questões propostas muitas vezes apresentam conteúdo das disciplinas ao participante em vez de solicitá-lo, mas exige que o aluno cruze essas informações com outras, raciocine e encontre a resposta para um problema.

— Nossa educação, o que inclui as escolas privadas, ficou muito voltada para o tradicional modelo de vestibular, em que havia até macetes para decorar fórmulas. Não há mais macetes no Enem — complementa a especialista.

Investimento é um obstáculo
Essa é a mesma avaliação da professora da UFRGS Elizabeth Krahe, para quem as escolas gaúchas são mais fiéis ao ensino isolado de disciplinas e com pouca referência à vida real. O secretário estadual da Educação, Jose Clovis Azevedo, afirma que a reforma do Ensino Médio em andamento tem como um de seus objetivos diminuir essas barreiras.

— A escola, que sempre foi lugar de repetição, hoje tem de ser lugar de criação — avalia Jose Clovis.

Esse desafio esbarra em outros nós do ensino rio-grandense, como a formação de professores. Embora cerca de 90% do magistério estadual tenha formação superior, segundo Roselane os cursos universitários seguem formando educadores com perfil tradicional. Na rede pública, o Rio Grande do Sul ainda enfrenta outros obstáculos para melhorar. Por exemplo:

1) Dificuldade de investimento: a proporção de inativos, o abismo entre os maiores e os menores salários e os parcos recursos do governo reduzem a verba para a educação. A fração do PIB gaúcho aplicada em educação, que já foi de 1,5%, em 2011 ficou em 0,3%.

2) Baixos salários: com poucos recursos e uma folha de pagamento que já consome perto de 90% do orçamento, o governo tem dificuldade para cumprir a Lei do Piso.

3) Polarização política: temas como plano de carreira, meritocracia e reorganização de turmas costumam envolver opositores ferrenhos, e o Estado não consegue definir uma política de longo prazo.

O presidente do Sindicato do Ensino Privado, Osvino Toillier, admite que outros Estados têm uma média diária de horas de aula superior. Mas acredita que o fato de o Estado não ter nenhum estabelecimento particular entre as cem melhores instituições do país também se explica por outras razões:

— Os demais Estados têm uma maior preocupação com o Enem, programam-se e se estruturam para preparar os alunos com o objetivo de alcançar uma boa média.

Do primeiro ao oitavo lugar em três edições

Pode ferir a mania egocêntrica, que bebe no bairrismo e gera brincadeiras entre os próprios gaúchos, mas a sentença “a educação no Rio Grande do Sul já foi referência” tem fundamentos verdadeiros. E que, como a conjugação sugere, parecem ter ficado em um tempo em que o Estado tinha bons índices, como as taxas gerais de escolarização.

Quando se encerra a fase em que a discussão gira em torno de questões quantitativas, no entanto, entra outra: a que enaltece a qualidade. E nesse recente comparativo, o último Enem traz um preocupante alerta: o Estado deixou de ocupar o primeiro lugar entre os estados brasileiros em 2009 para se posicionar como o oitavo em 2011.

Ao relembrar tempos áureos, Maria Beatriz Luce, doutora em Educação e professora da UFRGS, exalta o momento em que o Estado servia de modelo — muito devido à valorização da educação no período positivista — em função do grande número de escolas públicas e da reduzida porcentagem de analfabetismo. Hoje, no entanto, acredita que a combinação entre a falta de investimento em qualificação e a “paralisia” causada pela dificuldade de se fazer críticas propositivas explique a posição que o Estado assume em âmbito nacional.

— Não há dúvidas de que falta um projeto político para a educação gaúcha. E nesse sentido, me refiro tanto ao ensino público quanto ao privado. Mas também é preciso ter cautela na avaliação do resultado de indicativos como as médias do Enem, uma vez que provêm de apenas uma das métricas de qualidade — complementa a pesquisadora.

É preciso mais carga horária
Osvino Toiller, presidente do Sinepe/RS, confere ao crescimento e à modernização do sistema de ensino em outros Estados uma possível explicação para a queda gaúcha no ranking. Além disso, acrescenta a necessidade de se aumentar a carga horária em escolas e de se promover uma profunda reflexão sobre a identidade do Ensino Médio gaúcho e o valor que o Enem passa a ter para as escolas.

— Ao mesmo tempo que é desconfortável saber que ficamos para trás, momentos como esse nos fazem repensar. Talvez seja hora de mobilizar o “time” em busca de estratégias para se atingir um novo posicionamento. Que o Enem não seja apenas uma ferramenta de marketing. Que se torne um resultado efetivo e represente a essência do trabalho de alunos e professores em sala de aula — avalia Toiller.

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