Joaquim Barbosa: negro, popular e agora presidente do Supremo

O mineiro Joaquim Benedito Barbosa Gomes é eleitor do PT. Votou em Lula, votou em Dilma. Sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) teve a chancela do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Histórico que não impediu o relator da ação penal 470 de conduzir a condenação de ícones petistas no julgamento do mensalão. O primeiro negro a assumir a presidência da mais alta Corte do país é um homem que preza pela independência.

Implacável, irritadiço ao ter seu ponto de vista contrariado, Barbosa toma posse na próxima quinta-feira em alta. Aos 58 anos, virou uma celebridade que carrega na origem humilde e na mescla de hábitos simples e sofisticados a base do fascínio popular. Barbosa é o negro poliglota, o amante de música clássica e samba, o homem que prepara o próprio café, mas só veste ternos importados.

Desde pequeno, nunca foi de baixar a cabeça. Primogênito dos oito filhos de um pedreiro e uma dona de casa, nasceu em Paracatu, cidade do noroeste mineiro, erguida com o suor escravo. Nas décadas de 1950 e 1960, a segregação racial persistia, porém fazia questão de ocupar os mesmos espaços dos meninos brancos.

— Ele não aceitava ser barrado por causa da cor. E descontava qualquer discriminação nas notas. Deixava os filhos dos fazendeiros pra trás na escola — recorda o amigo José Romualdo, o Zé da Áurea, 63 anos.

Dito, como os familiares o chamam, cresceu no bairro de Paracatuzinho, em uma casa de adobe, alvo de romarias de repórteres nas últimas semanas. Lia compulsivamente, aprendeu a tocar piano e violino, cantarolava em inglês e dava seus dribles com a camisa do Santana Esporte Clube.

— Joaquim lembrava de longe o Dirceu Lopes, craque do Cruzeiro — recorda o ex-jogador Dario Alegria, primo distante do ministro.

Apesar do gosto pelo futebol, Barbosa tabelou com os livros. Fez doutorado na Sorbonne e passou a dar aulas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Virou o orgulho de Paracatu.

— Qualquer um que tem Barbosa no nome diz que é parente dele — ri a afilhada Junia, 37 anos.

O mineiro construiu uma trajetória impecável, resposta aos que insinuam que virou ministro por ser negro. Na verdade, as duas questões convergem. Lula queria creditar ao seu governo a nomeação do primeiro negro do Supremo. O currículo, aprovado pelo então ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, facilitou a escolha.

Na cúpula do Judiciário, Barbosa coleciona discussões com colegas. Ao tratar com rigor crimes de colarinho branco, passou a ser aplaudido nas ruas, cultuado nas redes sociais. Em Paracatu já se cogita erguer uma estátua em homenagem ao filho ilustre. Os mais exaltados criaram um site para defender a candidatura do ministro à Presidência da República. O magistrado garante que não pretende suceder Dilma Rousseff, tampouco se considera super-herói. Porém, sabe: jamais um presidente do STF teve tamanha popularidade.

Advogados e colegas esperam serenidade
Popular nas ruas e nas redes sociais, Joaquim Barbosa divide opiniões no Judiciário e coleciona rusgas com colegas de toga. Em 2009, ficou famoso o bate-boca com Gilmar Mendes, a quem acusou de destruir “a credibilidade da Justiça brasileira” e de ter “capangas”. No ano seguinte, licenciou-se para tratar as dores nas costas, porém foi visto em festas e bares de Brasília. Já em abril passado, chamou o ex-ministro de Cezar Peluso de “conservador, imperial e tirânico”.

O histórico causa expectativa em relação ao mandato que se inicia na quinta-feira. Em conversas particulares, os demais ministros esperam que Barbosa tenha serenidade e consiga domar seus impulsos. Já os advogados preveem tempos difíceis – uma projeção carregada de antipatia. Membro do Ministério Público Federal por quase 20 anos, o magistrado é criticado por supostamente carregar uma predisposição em condenar.

– São anos e anos de consciência acusatória – comenta um criminalista.

Barbosa é conhecido por tratar os advogados com frieza. No julgamento do mensalão, não aceitou pedidos para despachar com os defensores dos réus. Em outros processos, quando recebe os profissionais, é rápido e direto, não se estende por mais de 10 minutos.

– Ele não é ofensivo, mas não é um primor de simpatia – diz um advogado.

Já o Ministério Público aplaude o novo presidente do Supremo, elogiado pela rigidez com que trata crimes de corrupção e conduz seu gabinete. Barbosa mantém um púlpito em sua sala, já que, em virtude do problema na coluna, trabalha parte do tempo em pé e parte sentado. Perfeccionista, não admite erros de português. É implacável com vazamento de informações, porém afável.

– Ele é sério, mas muito gentil com quem trabalha bem – afirma um antigo assessor.

CURRÍCULO NOTÁVEL:
— Joaquim Barbosa detém um dos currículos mais notáveis da história do Supremo Tribunal Federal. Fez a formação escolar entre Paracatu e Brasília, para onde migrou na adolescência. Na capital federal, estudou no colégio Elefante Branco.

— Trabalhou na gráfica do Senado, era um dos poucos negros no curso de Direito da Universidade de Brasília, onde ainda fez mestrado. Mais tarde, obteve título de doutor e mestre em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas).

— É professor licenciado da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor visitante em duas universidades americanas. Ainda estudou línguas estrangeiras no Brasil, Inglaterra, Estados Unidos, Áustria e Alemanha.

— Foi oficial de chancelaria do Itamaraty, chefe da consultoria jurídica do Ministério da Saúde e membro concursado do Ministério Público Federal de 1984 a 2003, quando foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

— O sucesso na carreira fez Barbosa levar a família para Brasília. Na capital, mora a mãe, Benedita, conhecida por ser uma evangélica fervorosa, além dos irmãos e sobrinhos — o pai faleceu há dois anos. Separado há pouco tempo, o ministro mantém outra parte da vida no Rio de Janeiro, onde vive Felipe, seu único filho.

(Clicrbs)

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