Escola João Ferrari participou da 3ª Olimpíada de Língua Portuguesa

CAMPOS BORGES – A Escola Estadual de Educação Básica João Ferrari participou da 3ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa – Escrevendo o Futuro, obtendo destaque na etapa estadual nas seguintes categorias:

1ª – Memórias Literárias com o texto “A história que ressurge das águas”, escrito pela aluna da 7ª 2, Vitória Benedetti de Toledo, coordenado pela professora Eugênia Toledo Trombetta.

2ª – Crônica com o texto “Progresso: a que preço?”, da aluna do 1º 1, Josi Gonçalves de Castro, coordenado pela professora Marisa Benedetti de Toledo.

3ª – Artigo de Opinião com o texto “Potencial Energético: Des(caminho) para o progresso de Campos Borges?”, da aluna Tassiele Toledo, coordenado pela professora Marisa Benedetti de Toledo.

O trabalho realizado que teve como tema “O lugar onde eu vivo”, teve como base os depoimentos de Mauro José Rodrigues, 63 anos, que conta a história dos moradores da comunidade do Mundo Novo, quando na década de 70, tiveram de deixar o local onde viviam em decorrência da construção da Barragem do Passo Real. Os alunos visitaram o local e tiveram a oportunidade de reviver histórias de vidas que ficaram submersas nas águas do alagado, resgatadas agora, 40 anos após, em conseqüência da seca que deixou à mostra as ruínas do antigo vilarejo.

Após a visitação ao local, os alunos escreveram e reescreveram seus textos, sendo que o texto da aluna Vitória Benedetti de Toledo, 7ª 2, foi selecionado para participar da etapa regional como um dos 500 semifinalistas. Nos dias 12 a 14 de novembro, a aluna participará de oficinas de escrita em São Paulo, enquanto toda a comunidade escolar fica na torcida para que o texto seja um dos finalistas.

A história que ressurge das águas

A longa estiagem que assola o município de Campos Borges e região neste ano de 2012 me fez voltar para o lugar onde meus pais enterraram meu umbigo há 63 anos atrás quando nasci, lugar este que se não fosse a construção da Barragem do Passo Real, seria hoje, provavelmente a cidade de Mundo Novo.

Foi por volta dos anos de 1970 ou 1971, não me lembro bem, pois estava servindo o quartel, o pessoal da CEE vinha medir a altitude e muita gente não acreditava que o nível da água fosse subir tanto e cobrir uma extensão de terra tão grande, mas a água veio, quem acreditou, tirou o que tinha, outros perderam tudo, do moinho, não saiu nem uma tábua, nem a farinha, ficou tudo embaixo da água.

As pessoas que possuíam documentos de suas propriedades foram indenizadas até onde a água chegou, mas tudo a preço venal e, quem não possuía documentos de suas terras não recebeu nada.

Vivíamos em uma pequena comunidade unida e feliz, na grande maioria, parentes, havia duas bodegas onde se negociava de tudo: porco, galinha, arroz, feijão, fumo, milho, etc…, tanto vendia mercadorias como recebia o que era produzido no local.

A comunidade era pequena, mas bem desenvolvida para a época, pois lá havia: serraria, ferraria, engenho, moinho, fábrica de móveis, fábrica de mandolates, dois açougues que trabalhavam em conjunto, um carneava na terça e o outro na sexta e os dois comercializavam toda a carne. Tinha também uma igreja, o bolão e dois salões de baile, era uma comunidade completa e muito bem organizada.

Lembro-me do hotel do meu pai com seus dezesseis quartos e servia de hospedagem para as pessoas que passavam por aqui, e convém lembrar que era um lugar de bastante circulação, daqui saía ônibus para Ibirubá duas vezes por semana, para Cruz Alta todos os dias e para Espumoso, uma vez por semana.

A primeira geladeira que a comunidade viu foi adquirida pelo meu pai e era movida a querosene. Era onde toda a vizinhança conservava o leite da criançada, que vinha em latas de azeite, cada qual identificada com o nome da família.

Minha mãe misturava leite com açúcar e fazia picolés, trabalhávamos a semana inteira tratando os porcos, tirando leite, cuidando dos cavalos para no sábado ou domingo ganhar um picolé ou uma garrafinha de Grapete que tomávamos bem devagar, sentindo o gosto da uva na boca.

Aqui no Mundo Novo havia luz nas casas somente à noite e era gerada por uma roda d’água, que durante o dia tocava o moinho e a serraria e durante a noite a pequena vila era toda iluminada.

A diversão era o futebol e também os bailes, eu jogava no time “Boa Esperança”, jogávamos principalmente com Os Serranos e com a Alemanha, reuníamos o pessoal e caminhávamos quilômetros com as chuteiras nas costas para jogar uma partida e ninguém reclamava ou achava ruim.

Depois que minha mãe morreu, meu pai começou a trazer carros de São Paulo para revender na vila e também na região, então aos poucos as famílias foram adquirindo seus automóveis. Mas o tempo foi passando, a barragem ficou pronta, represaram a água e tivemos que desmanchar nossas casas e deixar o lugar onde vivíamos para a água cobrir.

Hoje, quarenta anos após a inundação a seca deixou à mostra as ruínas deste lugar chamado Mundo Novo, caminho por aqui e a cada momento as lembranças voltam vivas a minha mente, cada poço aberto era a casa de um morador, um vizinho. Ando mais um pouco e encontro objetos que o tempo e a natureza não destruíram: vidros, tijolos, telhas, pedaços de pratarias, talheres, calçados, tudo deixado para trás na mudança.

Sinto saudades! Saudades dos serões que fazíamos nas casas dos vizinhos acompanhando a santinha e rezando o terço e depois comíamos pipoca, batata-doce, bolo frito, pé de moleque, etc.

Hoje posso dizer que a construção da Barragem do Passo Real trouxe progresso, mas marcou a vida de muitas pessoas e o retorno a este lugar me traz recordações de um passado que me deixa emocionado: meus pais, meus amigos, minha infância, é a história da minha vida que ressurge das águas

Texto baseado na memória de Mauro José Rodrigues, 63 anos.

Vitória Benedetti de Toledo

Compartilhe: