E quando tudo passar?

“De fato, os dias de nossa vida chegam há setenta anos, ou a oitenta para os que têm mais saúde; entretanto, a maior parte dos anos é de labuta e sofrimentos, porquanto a vida passa muito depressa e nós voamos!” (Sl 90,10). A vida passa bem depressa, como nos diz o Salmo, mas nós também podemos nos inventar novamente! Embora seja cada vez mais difícil a aposentadoria, contudo, ela virá. E quando chegar ao momento em que de nossa vida, muito pouco ainda temos para oferecer ao mundo e à sociedade? E quando tudo passar: a esposa ou esposo se vão para junto de Deus; o trabalho que amamos tanto, de repente, nos é tirado, pois não somos mais capazes; as pessoas que amamos muito, de repente já não são mais as mesmas, pois elas têm outros modos de viver, de ver a vida e chamam de “chato” aquele que está à frente. Aqui vale nossa sensibilidade para perceber o que, os que mais viveram, podem nos ensinar. Muito podem nos ensinar!

A vida pode parecer inútil! Esta é a sensação de algum momento. A velhice é a oportunidade de ver quem fica até o fim conosco. Só ficará até o fim, a pessoa que nos ama muito. Aquela pessoa que viveu e sofreu conosco muitos momentos. Que soube viver conosco sempre, sem constrangimentos. Quantos exemplos muito belos de pessoas que souberam viver bem, com muita dignidade, todos os momentos da vida. Até a oportunidade de viver algum tempo conosco, como a pessoa que passa longos anos cuidando de outra pessoa idosa, somente porque vê nela o amor de Deus. Sem produzir nada e nem ser útil para nada, simplesmente porque você é uma pessoa amada por Deus, um filho ou filha de Deus, somente por isso. É porque Deus te ama.

Sabemos que nossa espiritualidade envolve, faz e nos diz do que somos capazes. Nossa vida, após este tempo em que já fizemos o que devíamos fazer, ela nos diz que somos capazes de amar. Para isto, não precisamos de esforços. Somente um sorriso. Um belo sorriso! De fato, para nós cristãos católicos, o que irá nos fazer diferentes na idade da velhice é nosso jeito de ser como pessoas ligadas a Deus. Se em mim acolhi o amor de Deus e conversei com Ele todos os dias, então, sim, Ele irá me acolher e consolar. Em nossa vida, será um tempo de rezar bastante por todos os que têm pouco tempo para rezar. Tempo para poder ouvir os meios de comunicação e rezar muito. E, todos os que já estiveram conosco, colocá-los diante de Deus. Temos, também, o jeito de ser dos que já estiveram neste mundo e que pedem que sejam ouvidos. O olhar bondoso e alegre de quem já está logo mais partindo, nos encanta e nos faz dizer “muito obrigado”. Vivamos nossa espiritualidade, em Jesus Cristo. E, se tivermos algo para nos arrepender, ainda é tempo.

É certo que um jovem deveria ter sempre um espírito crítico. Como disse nosso Papa Francisco: “Trata-se, simplesmente, de estar abertos para recolher uma sabedoria que é comunicada de geração em geração, que pode existir com algumas misérias humanas, e que não tem porque desaparecer diante das novidades do consumo e do mercado” (CV, n. 190). Feliz a sociedade que olha para os mais idosos como sendo os que trazem o bem e a paz. Eles são os que garantem que a sociedade vale a pena ser vivida e sofrida.

Gratidão a vocês, queridos idosos e idosas. Deus os abençoe!

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta

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