CRUZ ALTA – Entrevista especial com Dom Jacó Hilgert: uma trajetória de fé e devoção a Deus

Dom Jacó, lembra, ainda, que na paróquia a qual pertencia em Harmonia, havia um pároco muito zeloso, que movimentava as vocações sacerdotais e religiosas. “Ele dava muito incentivo. Isso também me encantou”, diz.

Porém, mais forte que tudo isso foi o chamado de Deus. “Misterioso como todo o chamado, veio no silêncio, no interior, mas muito forte. Foi quando decidi ir para o seminário para ser padre”.

As dificuldades
“Deixar a família foi o mais difícil”, lembra Dom Jacó ao falar de sua escolha. Uma família grande, de 12 filhos, todos muito unidos. Mas além desta, foi preciso superar outras dificuldades, como a falta de dinheiro para custear os estudos. “Era uma época em que os pequenos agricultores, no caso de meu pai, passaram por muitas dificuldades. Colhiam bem, mas aquilo que eles tinham para fazer dinheiro havia perdido o valor. Não tinha comprador para os produtos. Então eu via a pobreza. Não havia falta de alimento, pois nunca nos faltou, era farta, mas não tinha dinheiro para pagar os estudos, pagar o seminário. Meu pai sozinho não tinha recurso para isso. Então os parentes todos ajudaram. Assim pude começar os estudos no seminário”.

O chamado de Deus foi ouvido, também, por outras duas irmãs de Dom Jacó, uma mais velha que ele e outra mais nova, que também optaram pela vida religiosa. “Duas tias minhas também eram religiosas. Elas deram todo o apoio para que nós perseverássemos em nossas escolhas. Na época, muito jovens, víamos mais o mundo do que o Reino de Cristo, o que facilitava empreendermos em outras questões em prejuízo a vida religiosa. Felizmente superei todas estas dificuldades, e continuo hoje aqui, firme, como padre”, enfatiza.

“Ficamos padres para servir a nossa Igreja”
Quando o assunto é a vida sacerdotal, Dom Jacó é direto: “Estou muito contente com a minha vida. Gostaria que todas as pessoas, que seguem uma vocação, também, pudessem ser fiéis, pudessem sentir a alegria de servir a Cristo, seja neste estágio de vida ou no outro. Nem todos são chamados para serem padres ou religiosos, mas os que seguem essa vocação, que seja para realmente servir a Cristo, servir a Igreja, e não procurar o seu bem estar pessoal, seja econômico ou social. Nós ficamos padres para servir a Igreja, para atender as necessidades de todo o rebanho de Cristo, sem olhar se é rico, se é pobre, se é idoso, criança ou jovem. Todos merecem a mesma atenção do padre, como Jesus deu atenção a todos. Ficamos padres para servir o povo santo de Deus”.

Momentos especiais
Para Dom Jacó, o primeiro momento especial de sua vida foi a Ordenação Sacerdotal, que aconteceu no Seminário Maior de São Leopoldo, onde fez a Faculdade de Filosofia e Teologia. “Neste dia estavam presentes meus pais, meus irmãos, enfim, todos os meus familiares. Lembro que ao terminar a cerimônia, ao sair da igreja todos meus parentes me aguardavam. Na hora quis dar um abraço no pai, mas ele me disse: ‘Espere! Queremos, primeiro, receber a sua bênção de neo-sacerdote’. Todos se ajoelharam e lhes dei a minha bênção. Realmente me emocionei muito. Isso nunca vou esquecer”, conta ele, emocionado.

Dom Jacó lembra que, com ele, se ordenaram mais 4 padres. Destes, hoje, somente ele ainda vive, e, dos colegas de curso, apenas um, o Monsenhor Maximo Benvegnu, que está residindo com familiares em São Domingos. Dom Jacó faz visitas seguidas ao amigo, já que este não tem mais condições de sair de casa. “Temos a mesma idade, com a diferença de 5 dias, sendo ele mais novo. Por isso, sempre brinco com ele, que tem que me respeitar porque sou mais velho cinco dias”, brinca o bispo Emérito.

Outro momento importante foi nas premícias sacerdotais, sua primeira missa, que celebrou em sua terra natal. “Foi um dia muito bonito. A igreja estava lotada, era 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição e fizemos a festa de maneira muito popular, bem simples. Não foi dentro de salão, foi no pátio da casa de meus pais. Lá todos foram acolhidos e saíram felizes”, diz.

Também tem como momento importante o dia em que foi escolhido para ser Vigário Episcopal, em Camaquã. “Nas funções, eu era um bispo sem ser ordenado”, brinca ele, contando que as funções de um Vigário Episcopal equivalem as de um bispo auxiliar. Quando tomei posse, também, teve muita gente. Então eu atendia toda aquela região de Guaíba até Camaquã. Eram ao todo 22 paróquias e muitas comunidades.

Por fim, o grande momento foi quando recebeu a consulta de Roma, para saber se ele aceitava ser bispo. “Nunca tinha pensado ou sonhado com isso. Foi uma surpresa muito grande. Na época me consultei com outros bispos, me emocionei, me lembro bem disso, e por fim, dei minha resposta dizendo que aceitava. Aí saiu a minha nomeação como bispo de Cruz Alta. Foi a primeira e a única diocese que trabalhei como Bispo. Esse dia, evidentemente foi o máximo na minha vida. Sigo hoje, ainda, com esta mesma emoção, como bispo Emérito de nossa Diocese. Hoje estou velho, trôpego, mas ainda consciente e pronto para atender as pessoas sempre que puder”, diz.

Uma Paixão
Comunicador por natureza, Dom Jacó admite ter paixão pelo rádio, estando os seus programas de rádio entre as atividades que mais gosta. “Adoro fazer o meu programa de rádio. Tenho, hoje, 59 anos de programa de rádio diários, além dos programas semanais de outras rádios”, afirma.

Nos anos em que passou em Camaquã sempre teve programa de rádio. No seu primeiro ano de padre, deu a bênção à rádio Montenegro, quando estava sendo inaugurada. “O pároco tinha saído de férias, então fui eu quem dei a bênção. Já, nesta oportunidade, me convidaram para fazer um programa diário. Depois de lá, fiquei somente 4 anos longe das rádios, quando assumi a minha primeira paróquia em Canoas, pois lá eu não tinha rádio para falar. Mas estes foram os únicos quatro anos, em 63 anos de padre”, conta.

Preparando para encontrar com o criador
“O sonho que tenho é me preparar bem para me encontrar com o bom Pastor e entregar toda minha vida a Deus da mesma forma que a recebi. Espero poder morrer na graça de Deus e ser acolhido no reino dos céus. Isso é um voto que todos os Cristãos deveriam ter, pois a nossa vida não é perene neste mundo e nem atingimos a felicidade completa, mas, queremos, ainda assim, servir a Deus e ao nosso bom pastor Jesus Cristo. Também como pastor do rebanho de Deus, gostaria de poder, ainda servir, com os meus 90 anos, a quem quiser ser atendido, seja para um consulta, uma missa. Pois ainda estou lúcido, tenho condições de celebrar. Isso me alegra muito e agradeço a Deus por isso”, diz.

Mensagem
“Eu gostaria que, ao entrarmos agora no ano santo, no dia 08 de dezembro, que todos pudessem formar o grande rebanho de Cristo. Que não houvesse nenhuma ovelha perdida. Se alguém se afastou da Igreja, que o caminho esteja aberto para ser bem acolhido, pois afinal de contas todos nós cristãos somos alimentados pelos mesmos ensinamentos da Bíblia e seguimos todos os ensinamentos de Jesus Cristo. Que não seja apenas pelo meu aniversário, mas que seja um dia que abrimos o nosso coração para Deus, para agradecer e nos dispor a sermos ovelhas de seu rebanho”.

Por Greice Pozzatto
Assessora de Comunicação da Diocese de Cruz Alta

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