Cientistas consideram subestimados os alertas sobre mudanças climáticas

A questão não é se a temperatura vai subir, mas quando isso vai acontecer

Neste mês, o mundo receberá um novo relatório de um grupo de especialistas da ONU a respeito da ciência da mudança climática. Em breve, os cientistas vão se reunir em Estocolmo para dar os retoques finais no documento. Nos bastidores, duas grandes brigas estão fermentando.

No primeiro caso, temos uma boa parte da comunidade científica dizendo que se a sociedade humana continuar queimando combustíveis fósseis com despreocupação, um considerável lençol de gelo poderia derreter e o mar chegaria a subir 90 centímetros até o ano 2100. Já uma teoria discrepante sustenta que o problema poderia ser bem pior do que esse, com o crescimento máximo passando de 1,5 metro.

Os responsáveis pelo esboço do relatório teriam optarado pelos números mais baixos, preferindo tratar os outros como pouco verossímeis.

No segundo caso, temos a comunidade científica assegurando que se a quantidade de dióxido de carbono da atmosfera duplicar, o que pode muito bem acontecer, o aumento no longo prazo na temperatura da Terra será de pelo menos 6°C, mas mais provavelmente acima dos 9°C. Já para a ciência discrepante, a elevação poderia vir bem abaixo dos 5°C.

Neste caso, os redatores do relatório reduziram a extremidade inferior em um intervalo de temperaturas para o quanto a Terra poderia se aquecer, tratando a ciência discrepante como verossímil.

Os céticos da mudança climática costumam desacreditar esses estudos periódicos das Nações Unidas, alegando que o grupo de especialistas que os redige costuma alargar as fronteiras dos fatos científicos para tornar o problema o mais terrível possível. Assim, é interessante ver que nesses dois casos importantes, o grupo parece estar se inclinando ao conservadorismo científico.

É correto jogar fora ciência de vanguarda absoluta no primeiro caso enquanto esta é mantida no segundo caso? Difícil julgar se você não for um climatologista profissional. Afinal, pagamos por seu conhecimento da mesma forma que pagamos para médicos nos orientarem quando somos diagnosticados com uma doença. E estamos falando de duas questões distintas aqui, cada qual com seu próprio corpo de pesquisa especializado.

O grupo responsável pelas decisões é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), comitê de âmbito mundial com várias centenas de cientistas versados no complexo campo da climatologia. O IPCC ganhou o prêmio Novel da Paz em 2007, junto com Al Gore, por ajudar a alertar o público dos riscos corridos com a combustão incontrolada de combustíveis fósseis.

As decisões do grupo somente serão finais quando o documento oficial for divulgado em 27 de setembro. Nós as conhecemos somente porque um esboço secreto foi vazado antes da sessão de edição final acontecer em Estocolmo. Cientistas de alguns países fizeram objeções às decisões preliminares quanto ao nível do mar e à temperatura e podem muito bem mudar o relatório final.

Talvez devessem: climatologistas que não integram o comitê neste ano pensam dessa forma. O temor é de que o IPCC possa estar se contendo.

Acontece que o prêmio Nobel, por mais bem-vindo que tenha sido em 2007, exerceu a mesma função que no caso de muitos outros cientistas premiados ao longo dos anos: pintou um grande alvo nas costas do comitê. O grupo tem sido atacado nos últimos anos pelos céticos do clima. As táticas de intimidação incluíram palavras rudes em blogs, comparações ao Unabomber, invasões de e-mail e até mesmo uma ou outra ameaça de morte.

Quem poderia culpar o IPCC se ele terminar vagando pelo lado do conservadorismo científico? Contudo, a maioria dos cidadãos deseja outra coisa do grupo: uma análise sem retoques dos riscos que correm.

Sendo claro, mesmo que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas termine com os números baixos nesses dois casos, estes já são inquietantes até dizer chega. De acordo com os melhores cientistas, a questão não é se o nível do mar vai subir 1,5 metro, mas se isso acontecerá neste século ou no próximo.

De forma similar, com a temperatura, o IPCC está dizendo somente que os números menores são possíveis, não que são prováveis. Na verdade, o sistema de referência usado na literatura científica _ o efeito na temperatura da duplicação do dióxido de carbono _ é apenas uma forma conveniente de comparar estudos. Muita gente comete o engano de pensar que o importante é o quanto a temperatura global vai aumentar.

No ritmo atual, não existe motivo para pensar que vamos parar de queimar combustíveis fósseis quando o dióxido de carbono duplicar. Poderíamos estar a caminho de triplicar ou quadruplicar a quantidade desse gás aprisionador de calor na atmosfera. Nesse caso, acreditam os especialistas, até mesmo uma Terra que seja um tanto insensível ao dióxido de carbono sofrerá mudanças drásticas.

É claro que as estimativas elevadas são mais assustadoras, e seria legal ouvir uma explicação dos redatores do futuro relatório sobre por que tomaram decisões a partir da possibilidade mais “otimista”. Porém, com o relatório ainda oficialmente em segredo, eles não falam publicamente. Dessa forma, somos deixados nos perguntando se se trata de uma questão de puro julgamento profissional – ou se foram intimidados pelos ataques dos últimos anos.

Supondo que tais decisões resistam à revisão final, será fascinante ouvir as explicações detalhadas em Estocolmo.

(Clicrbs)

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