Chegada da sonda Curiosity a Marte dá novo fôlego para cientistas desvendarem mistérios do planeta vermelho

Dias de 24 horas. Planícies, mares, rios e vales. Quando os cientistas da Nasa olham para o céu, vislumbram nas paisagens áridas, gélidas e inóspitas de Marte um planeta-irmão que um dia pode ter sido muito semelhante à Terra.

Em cinco décadas, engenhocas mais inventivas que as da ficção permitiram ao homem esquadrinhar cada centímetro do solo marciano. Neste momento, a sétima e mais ambiciosa máquina a tocar e explorar o planeta vermelho faz as primeiras medições.

O simpático jipe-robô Curiosity sobreviveu a um pouso cinematográfico na última segunda-feira. A tecnologia inovadora tinha de ser precisa para não perder no espaço US$ 2,5 bilhões, 10 anos de trabalho e, talvez, o futuro de missões como essa.

O presidente americano, Barack Obama, ficou longe da sala onde os cientistas roíam as unhas. Ao fim de sete minutos de angústia entre a desaceleração de 21 mil km/h e uma suave descida, classificou o feito como a maior conquista desde a Apollo, que levou o homem à Lua em 1969.

Entusiasmo de candidato à reeleição à parte, chegar em grande estilo a Marte renovou o encantamento da exploração espacial que andava em baixa nos Estados Unidos. Desde o acidente de 2003 que desintegrou o ônibus espacial Columbia, a magia da Nasa se apagava.

No vácuo da crise econômica, o governo interrompeu duas missões com Agência Espacial Europeia e propôs cortes de 30% no orçamento do programa de exploração de Marte.

— O sucesso desta missão irá trazer outras. Temos de ser otimistas — diz o engenheiro brasileiro Nilton Rennó, professor da Universidade de Michigan e cientista da Curiosity, que no pouso ajudou a acalmar os colegas na sala de operações em Pasadena, na Califórnia.

Nos anos 2000, os jipes Spirit e Opportunity e a sonda fixa Phoenix procuraram água. Acharam gelo. Agora, a principal tarefa será encontrar algum vestígio orgânico do “Marte exuberante” que os olhos dos cientistas veem.

Pode haver vida até hoje, dizem Rennó e os outros dois veteranos na Nasa que ajudaram a conceber o Curiosity: os engenheiros brasileiros Ramon de Paula e Jacqueline Lyra. Enquanto o Curiosity cava no solo rochoso, os desbravadores terráqueos sonham.

— Há possibilidade de que possamos levar um astronauta a sobrevoar Marte na década de 2030, mas pisar lá vai levar mais tempo — opina De Paula, que chefiou a missão Phoenix e é executivo da agência em Washington.

Além das dificuldades técnicas, o custo para uma empreitada dessas é calculado, por baixo, entre US$ 20 bilhões e US$ 50 bilhões. Em uma estimativa mais realista, já será um grande passo atingir uma meta mais urgente, porém ainda distante: trazer amostras de Marte para Terra, um passo fundamental para quem pretende levar e trazer humanos.

Na segunda-feira, a agência espacial divulgou um vídeo de pouco mais de um minuto com imagens de Marte. Confira:

Em busca de vizinhos

Em noites de Marte brilhando no céu — nesta época disputa a atenção ao lado de Saturno — é inevitável olhar para o distante ponto vermelho e pensar por que ainda não chegamos lá. As semelhanças com a Terra colocam Marte no imaginário.

Nenhum outro astro foi alvo de tanta ficção científica quanto o quarto planeta do Sistema Solar. Além de homenzinhos verdes da literatura, pesquisadores também vislumbraram, com seus telescópios rudimentares, vida inteligente na superfície de cor de ferrugem e calotas polares como as nossas.

Até pirâmides — na verdade, montanhas esculpidas pelo vento — e o rosto de Cristo — uma ilusão fotográfica a partir de uma conjugação de sombras — foram vistos. Explicação para tanta criatividade só pode ser a vontade de ter vizinhos planetários.

Também conta o espírito de Marco Polo e Cristóvão Colombo, como lembrou o astrofísico Carl Sagan, o que nos leva sempre a buscar novas fronteiras. Apesar das semelhanças, mesmo regiões áridas da Terra são mais agradáveis do que as gélidas planícies do planeta vermelho.

A busca de vida em outro mundo faz ver que precisamos, antes de tudo, manter este nosso ninho tão habitável quanto o recebemos da natureza.

Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=UcGMDXy-Y1I&feature=player_embedded#!

Clicrbs

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