Assinado há 25 anos, tratado salvou a camada de ozônio

Há exatos 25 anos, foi assinado o tratado ambiental mais bem-sucedido da história. A adjetivação parte de Kofi Annan, Nobel da Paz em 2001 e ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O Protocolo de Montreal, de 16 de setembro de 1987, previa a redução da emissão de substâncias nocivas à camada de ozônio. Neste domingo, Dia Internacional da Preservação da Camada de Ozônio, comemora-se não apenas a adesão de 197 países ao tratado e a redução em 97% na emissão dos vilões da camada de ozônio, mas também o princípio de uma intensificação do debate ambiental como um problema global que precisa ser enfrentado por todos os governos.

A camada constitui-se de uma espécie de capa protetora da atmosfera, composta pelo gás ozônio. Ela é responsável por filtrar em torno de 95% dos raios ultravioletas do Sol que atingem a Terra. Sua destruição poderia elevar o número de casos de câncer de pele, catarata e alergias. Apesar de ser chamado de “destruição da camada de ozônio”, o fenômeno de sua deterioração não provoca buracos, e sim a rarefação, permitindo que uma maior quantidade de raios chegue ao planeta. Além de reações químicas naturais que lhe afetam, a camada de ozônio sofre principalmente com a emissão de substâncias químicas halogenadas artificiais, com destaque para os clorofluorcarbonos, mais conhecidos como CFCs. Estes foram os principais inimigos na guerra declarada pelos 46 países que inicialmente assinaram o Protocolo de Montreal.

A estratégia deu certo. Os países passaram a encorajar produtos que não utilizassem os CFCs e, assim, limitaram as emissões. As indústrias tiveram de modificar produtos e optar por diferentes tecnologias. Um detalhe importante reforçou a necessidade de que todas as nações participassem: os países signatários só podiam negociar com outros signatários. Além disso, um fundo conjunto foi criado para atender demandas tecnológicas, a fim de que países em desenvolvimento pudessem se adaptar. Depois de acurado monitoramento, em 2007, os principais relatórios da ONU apontavam: o Protocolo de Montreal interrompeu a deterioração da camada e deu início a sua restauração.

Atualmente, os países mais desenvolvidos pararam de emitir 99% das substâncias incluídas no tratado. Enquanto isso, as nações em desenvolvimento interromperam a emissão de 72% dos vilões da camada de ozônio. “Com 197 signatários, são os tratados (Protocolo de Montreal e sua antecessora, a Convenção de Viena) mais bem-sucedidos na história das Nações Unidas e conseguiram, até agora, reduzir em mais de 97% de todas as substâncias nocivas à camada de ozônio”, afirma a ONU.

Desafios ambientais
Há outros gases, no entanto, que ainda colocam em risco a vida na Terra. Gás de efeito estufa, o dióxido de carbono (CO2) é amplamente debatido no que se refere ao aquecimento global antropogênico (causado pelo homem). Conforme informações divulgadas pela Agência Internacional de Energia (AIE, na sigla em inglês), em maio deste ano, as emissões de dióxido de carbono subiram 3,1% em 2011 e tiveram um recorde de alta. A China foi a principal responsável por esse acréscimo nas emissões de CO2, com um aumento de 9,3%.

O professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Eduardo Artaxo Netto, explica que alguns gases de efeito estufa também afetam a camada de ozônio quando atingem altas altitudes e reforça: “Temos que sempre lembrar que a atmosfera de nosso planeta é única, tem um equilíbrio próprio, e alterações em um dos aspectos afetam a estrutura da atmosfera”.

Aquecimento global
Os gases de efeito estufa têm tornado difícil limitar o aumento da temperatura global em menos de 2ºC, conforme acordado por quase 200 países em 2010. Enquanto o primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto, que visava a reduzir a emissão desses gases de efeito estufa, expira no final de 2012, um novo acordo climático é pensado para buscar uma solução ao problema.

Conforme Artaxo, a maneira mais efetiva de conter o aquecimento global é reduzir, rapidamente, as emissões de gases de efeito estufa, em especial a redução do uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural). “Quanto mais cedo reduzirmos as emissões, menor serão os impactos climáticos do aquecimento global”, justifica. A geóloga Naomi Oreskes, professora da Universidade da Califórnia e ganhadora do prêmio de 2011 Climate Change Communicator of the Year, concorda: “Se queremos diminuir, ou parar, a mudança climática causada pelo homem, temos que controlar as emissões de gases de efeito estufa”.

Além da discussão do aquecimento global, em si, as consequências do aumento gradual da temperatura que está ocorrendo no planeta também suscitam opiniões divergentes. Para Naomi, o assunto é preocupante, pois as inúmeras previsões das consequências do aquecimento global, documentadas em vários relatórios do IPCC, já começaram a se tornar realidade. “A mudança climática já está tendo impactos, e esses impactos vão aumentar, a menos que medidas rápidas sejam tomadas para diminuir as emissões de gases de efeito estufa”, pontua.

Segundo Artaxo, esse aumento da temperatura está trazendo impactos importantes não só no clima do planeta, mas no funcionamento dos ecossistemas terrestres e marinhos. “Os modelos climáticos preveem que a temperatura ao longo deste século pode aumentar de 2 a 4°C, dependendo do padrão de emissão ao longo dos próximos anos, e este aumento de temperatura vai ter consequências importantes para o funcionamento dos ecossistemas e na frequência de eventos climáticos extremos”, enfatiza.

Além disso, Artaxo também propõe que a principal medida a ser tomada para restaurar o equilíbrio da Terra e estabilizar o clima global é reduzir a emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, reduzindo a queima de combustíveis fósseis. E isso deve ser feito aumentando a eficiência da geração e consumo de energia. “Também temos que diminuir o uso dos recursos naturais de nosso planeta, e tornar a produção e consumo de bens em processos sustentáveis a longo prazo. Além disso, reduzir o desperdício e usar os recursos naturais de nosso planeta, de modo mais inteligente, é imperativo”, reforça.

Ceticismo
Há um empecilho no próprio meio científico para o combate ao aquecimento global. Alguns pesquisadores divergem da ideia de que o homem é o principal responsável por esse fenômeno. O meteorologista Luiz Carlos Molion, da Universidade Federal de Alagoas, por exemplo, afirma que o aquecimento global antropogênico (AGA), alardeado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), é uma fraude e apresenta outra tese: a de que o planeta passará por um resfriamento global nos próximos 20 anos. “É óbvio que o CO2 não controla o clima global, e reduzir suas emissões, a um custo enorme para a sociedade, não terá impacto algum no clima”, argumenta.

Conforme Naomi, entretanto, não restam dúvidas de que o dióxido de carbono é um gás de efeito estufa que colabora para o aquecimento global. A especialista em história da ciência afirma que os cientistas sabem disso há 150 anos, e que mais de 100 anos atrás eles reconheceram que, quando acontece a queima de combustíveis fósseis, aumenta o teor de CO2 na atmosfera. “Com isso, eles previram que no final do século 20 nós observaríamos um aquecimento detectável. E essa previsão se tornou realidade”, justifica.

Assim como Naomi, Artaxo também defende que o aquecimento global não é uma questão de “acreditar”, pois não se trata de crença ou religião, e sim de evidências científicas. Para ele, os dados científicos são irrefutáveis. “Com o aumento da concentração de gases de efeito estufa como o metano, dióxido de carbono, óxido nitroso e outros, estamos definitivamente alterando o balanço radiativo de nosso planeta”, esclarece.

De acordo com a professora da Universidade da Califórnia, existem evidências científicas esmagadoras, documentadas, em mais de 20 anos de literatura científica, que comprovam o problema do aquecimento global. Artaxo complementa: “Um grande conjunto de medidas realizadas por muitos laboratórios demonstram cientificamente que tanto a concentração de gases de efeito estufa está aumentando na atmosfera, quanto a temperatura de nosso planeta está aumentando, como consequência da emissão de gases de efeito estufa”.

O consenso entre os cientistas ainda não parece uma realidade próxima. Mas Artaxo deixa um recado: “Eu sugiro que os ‘céticos’ olhem os dados científicos referentes às alterações climáticas globais, e que deixem de agir por questões ideológicas ou políticas. A ciência das alterações climáticas é muito sólida, apesar das incertezas inerentes ao processo científico. Não podemos deixar que interesses econômicos de alguns poucos setores da indústria dos combustíveis fósseis, por exemplo, possa levar o planeta a passar de seus limites de equilíbrio climático ou de comprometimento do funcionamento dos ecossistemas. Precisamos agir já, e com suporte científico sólido”, conclama.

Terra

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