A comunhão no tempo

A celebração de São Pedro e São Paulo, apóstolos, nos ajuda a compreender o significado da comunhão e sinodalidade eclesiais. O Papa Bento XVI, assim disse: “A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes. O grande rio que nos conduz ao porto da eternidade” (26 de abril de 2006). A cada ano que celebramos estes dois grandes pilares, olhamos para nossa realidade e dizemos que somos portadores não de pontos mortos, mas de vida, da vida que recebemos de Deus, em Cristo, para vivermos hoje, no mundo esta vida, para a eternidade. Somos hoje, como sempre, enviados a sermos petrinos e paulinos. A comunhão dos homens com Deus Trindade e a consequente comunhão dos homens entre si, são sempre um grande dom, uma graça de Deus e fruto do Espírito Santo. A raiz da comunhão humana está na comunhão com Deus, pelo batismo, e se expressa no respeito e acolhida aos irmãos e irmãs entre si.

Quem produz esta comunhão com as origens e hoje é o Espírito Santo. Santo Irineu disse: “Onde está a Igreja, ali também está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e todas as graças; porque o Espírito Santo é verdade” (Adversus haereses, III, 24,1). No primeiro sumário da fé cristã, a comunhão nasce da fé suscitada pela pregação apostólica, alimenta-se no partir do pão e da oração e expressa-se na caridade fraterna. Deste modo, viveram os primeiros cristãos, pois “eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42).

Nosso Papa Francisco nos ensina que nossa “história dá sinais de regressão”, com “conflitos anacrônicos que se consideravam superados”, bem como com o ressurgimento de “nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos” (FT, n.11). Continua dizendo que “mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia” (FT, n. 46). Assim, lembremos que a Tradição não é simplesmente a transmissão de alguns pontos, sinais, doutrinas, mas é a transmissão de uma verdade que nos une a todos. Nela somos uma “única família”. “Ela não é a simples transmissão material de quanto foi doado no início aos Apóstolos, mas presença eficaz do Senhor Jesus, Crucificado e Ressuscitado, que acompanha e guia no Espírito a comunidade por ele reunida” (Bento XVI, 26 de abril de 2006).

Sem dúvidas, a sucessão apostólica se dá pela comunhão eclesial com os apóstolos. Sempre a Igreja se reúne com os apóstolos. A apostolicidade desta vida se dá na comunhão com seu bispo local, da sua Diocese. É sempre este testemunho eclesial, de vida, que dá a garantia do caminho com toda a Igreja. “Mediante a sucessão apostólica é Cristo que nos alcança: na palavra dos Apóstolos e dos seus sucessores é Ele quem nos fala; mediante as suas mãos é Ele quem age nos sacramentos; no olhar deles é o seu olhar que nos envolve e nos faz sentir amados, acolhidos no coração de Deus” (Bento XVI, 10 de maio de 2006).

A celebração de São Pedro e de São Paulo são motivos reais para vivermos a comunhão no tempo, no hoje. Hoje somos anunciadores do Cristo a todos e, ao mesmo tempo, propagadores de uma vida de unidade eclesial.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta

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