“A Batalha pela Alma dos Beatles” narra o fim da maior banda da história

Divórcios costumam ser processos demorados, turbulentos, eventualmente traumáticos e, quase sempre, dispendiosos – emocional e financeiramente.

Foi assim a separação da maior banda pop da história, os Beatles. E é a história desse rompimento o tema do livro A Batalha pela Alma dos Beatles, do jornalista britânico Peter Doggett.

Editado originalmente em 2009, A Batalha… soma-se à volumosa bibliografia beatle, reforçada nos últimos anos por uma significativa safra de biografias da banda e de seus integrantes (veja abaixo). Pode-se dizer que Doggett – credenciado por décadas de trajetória no jornalismo musical, incluindo 21 anos de colaboração com o periódico The Beatles Book – escolheu contar a parte mais dolorosa da saga. Com isso, preencheu lacunas e complementou os relatos já existentes.

Os fatores que separaram John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr são notórios – entre eles, a morte do empresário Brian Epstein em 1967, a desastrada tentativa de autogerenciamento com a empresa Apple, os casamentos de John Lennon com Yoko Ono e de Paul McCartney com Linda Eastman. Doggett traz detalhes sobre tudo isso e também sobre o confuso período que se seguiu.

Para todos os efeitos, o ano da cisão foi 1969. Em setembro, em reunião privada, John anunciou que estava deixando a banda – mas, como a renovação de contrato do grupo com a gravadora EMI estava sendo negociada bem nessa época, a notícia ficou em sigilo. Coube a Paul revelar o segredo – para grande consternação dos fãs e dos próprios ex-companheiros – ao lançar seu primeiro disco solo, em abril do ano seguinte.

Ao longo dos meses e anos seguintes, houve uma ciranda de declarações ambíguas, partindo de todos os quatro ex-beatles, sobre as chances de uma reunião. Enquanto o destino de seus milhões de dólares e libras esterlinas era definido nos tribunais, todos eles viveram fases de depressão regadas a drogas e álcool. Doggett sugere que cada um deles, em algum ponto, desejou se reunir aos demais – hipótese que era então rechaçada por algum dos outros ex-colegas, como numa dança de cadeiras em que alguém sempre reluta em ocupar o último lugar vago.

Convencionou-se acreditar que os principais oponentes nessa batalha seriam John e Paul. Um despedaçou a memória da banda em uma ácida entrevista à revista Rolling Stone em 1970, e o outro foi à Justiça no ano seguinte para romper formalmente a sociedade dos Beatles. Mas o livro destaca também a amargura de George, cujo ressentimento em relação a McCartney interferiu até mesmo na aventura multimídia Anthology. Concretizado nos anos 1990, em uma fase em que Harrison e Ringo estavam em apuros financeiros, o projeto datava ainda dos anos 1960, e veio à tona mais por razões financeiras do que afetivas.

Em texto fluido e elegante, Doggett ainda esclarece que a parceria de John e Paul esteve prestes a ser retomada em vários momentos – um deles, por incrível que pareça, seria uma espécie de armadilha para amarrar McCartney judicialmente. O autor lembra ainda que a briga dos artistas para manter a propriedade sobre os direitos autorais de suas próprias canções foi perdida ainda nos anos 1960, quando a empresa ATV – que teve Michael Jackson entre seus proprietários, nos anos 1980 – comprou a maior parte das ações da editora responsável pelas músicas de Lennon e McCartney, a Northern Songs.

A saga não terminou. Apple e EMI ainda têm rusgas eventuais quanto a percentagens de direitos autorais, o que emperrou o lançamento oficial do catálogo beatle no meio virtual. No plano pessoal, a trégua também é tênue – uma declaração mais ousada de Yoko Ono, herdeira de Lennon, sempre pode gerar alguma retaliação da parte de Paul, e vice-versa. Como em todos os divórcios, as partes envolvidas estarão, para sempre e simultaneamente, envolvidas e afastadas.

A Batalha pela Alma dos Beatles
Peter Doggett
Reportagem. Editora Nossa Cultura, 512 páginas, R$ 69.

Confira algumas das passagens do livro
> Lennon pula fora
Foi em uma reunião de negócios na sede londrina da Apple, em 20 de setembro de 1969, que John anunciou sua saída dos Beatles. Nos 13 meses anteriores, Ringo e George já haviam deixado temporariamente o grupo, mas a declaração de John foi mais forte. Ironicamente, o motivo da reunião era a assinatura do novo contrato da banda com a Capitol Records, braço norte-americano da gravadora EMI, como narra Peter Doggett:

“(…) Antes da assinatura, John já havia deixado os Beatles. Houve uma conversação longa e que girou num mesmo círculo. (…) Foi um retrocesso às discussões inconclusivas de janeiro de 1969: Lennon virtualmente mudo, McCartney entusiasmado, mas envergonhado de si mesmo, consciente de que quanto mais otimista se mostrasse, mais ficaria à mercê do desprezo do ex-parceiro. Houve uma concordância mal-humorada por parte de Lennon e Starkey (Ringo Starr) quanto aos Beatles continuarem, mas nenhum deles vislumbrava como isso funcionaria. Foi quando McCartney _ não pela primeira vez _ revelou seu conceito de como poderiam atuar na próxima década: deviam retornar às raízes e aparecer em pequenos clubes (…). A resposta de Lennon foi curta e abusada: ‘Acho que você está idiota’. Então, sob o olhar consternado de McCartney, sorriu e disse: ‘Vejam, acho que é até melhor eu contar pra vocês. Eu não ia dizer nada até depois de assinarmos o contrato com a Capitol, mas estou deixando o grupo’. Na lembrança de McCartney: ‘Nossos queixos _ meu, de Ringo, de George e de Linda, que por acaso estava ali perto _ caíram’. Mas Harrison não estava lá, e nos anos posteriores Starkey não recordou qualquer sensação de choque, apenas de alívio.”

> Entre tapas e beijos
Os quatro Beatles brigaram e fizeram as pazes muitas vezes nos anos 1970. Em dezembro de 1974, por exemplo, John iria participar de um show de George em Nova York. Mas, outra vez, os negócios acabaram interferindo, como conta Doggett:

“Primeiro eles teriam que resolver uma certa questão. Depois de mais de três anos de negociações, e de arrepiantes despesas com advogados, os representantes dos quatro Beatles tinham finalmente produzido um documento de separação que marcaria a dissolução formal da sua sociedade legal e permitiria que o depositário oficial dividisse os royalties acumulados desde a primavera de 1971. Como Harrison, McCartney e Lennon estavam todos em Nova Iorque, ficou combinado que eles assinariam os papéis em presença uns dos outros na manhã do primeiro concerto de Harrison na cidade. ‘Todos chegamos para a grande reunião da dissolução final, no Hotel Plaza’, recordou McCartney. ‘… E John mandou dizer que não viria! Ele não ia atravessar o Central Park! (…)’. ‘Eu não fui assinar porque o meu astrólogo disse que não era o dia certo’, explicou Lennon. A paz foi restaurada no dia seguinte, e Lennon se encontrou com McCartney no escritório de Lee Eastman. Em seguida, os McCartneys partiram, e Lennon foi ao último show da turnê de Harrison. Nos bastidores, ele e May Pang (sua namorada na época) conversaram amigavelmente com Harrison, Yoko Ono e Neil Aspinall.”

> Luto e dinheiro
Doggett relata o impacto da morte de John Lennon, em 8 de dezembro de 1980, sobre os ex-companheiros. Conta que Paul e George passaram o dia seguinte tentando fazer música para amenizar a dor, enquanto Ringo visitou Yoko Ono. Mas o choque também teve impacto nos negócios.

“Apesar da anulação da associação legal, os quatro Beatles ainda estavam presos numa teia claustrofóbica de obrigações financeiras. Literalmente dezenas de empresas criadas gerenciavam e consumiam suas fortunas individuais e corporativas. Alguns de seus auxiliares haviam elaborado métodos de manobrar os ganhos, de uma jurisdição fiscal para outra, o dinheiro seguindo em alta velocidade pelo mundo, de empresa a empresa, rumo a paraísos fiscais.”

> O fim de tudo
A tão esperada reunião dos Beatles se deu no projeto Anthology, na década de 1990. Paul, George e Ringo trabalharam sobre fitas guardadas de John e o resultado foram duas gravações novas, Free as a Bird e Real Love, lançadas junto aos CDs duplos com raridades e sobras de estúdio. Um documentário e um livro completaram o pacote, que poderia ter incluído ainda mais colaborações inéditas _ mas a tensão entre Paul e George foi um obstáculo.

“McCartney fez uma última tentativa de convencer Harrison a juntar-se a ele na criação de uma terceira ‘nova’ faixa, para o Anthology 3 (lançado em outubro de 1996), mas não obteve sucesso. (…) Poucos dias após o lançamento, a Apple emitiu um comunicado oficial num tom de grandiosidade fúnebre (…): ‘O fim finalmente chegou’, dizia o texto. ‘Os Beatles não mais existem. A palavra oficial é que Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr nunca mais tocarão juntos como um grupo, e decidiram que não serão mais lançados compactos a partir de seu catálogo já editado’. O arquiteto-chefe do comunicado foi, evidentemente, George Harrison.”

Para beatlemaníacos
Os Beatles foram tema de vários outros livros lançados nos últimos anos:
> The Beatles – A Biografia, de Bob Spitz, Larousse Brasil, 982 páginas, R$ 100 em média
> John Lennon – A Vida, de Philip Norman, Companhia das Letras, 840 páginas, R$ 78 em média
> Paul McCartney – Uma Vida, de Peter Ames Carlin, Nova Fronteira, 408 páginas, R$ 45 em média
> As Cartas de John Lennon, de Hunter Davies, Planeta do Brasil, 400 páginas, R$ 60 em média
> Um Dia na Vida dos Beatles, de Don McCullin, Cosac Naify, 144 páginas, R$ 69 em média.

Clicrbs

Compartilhe: