Vidas renovadas

Quem já se encontrou com um jovem ou adulto que teve a coragem de realizar um período de recuperação numa comunidade terapêutica, fica impressionado. Ele retorna para a sociedade, normalmente, decidido a retomar sua caminhada: renovei a vida. Conta os dias e meses do início de uma nova vida, uma vitória. Em nossa Diocese de Cruz Alta, temos três comunidades terapêuticas de recuperação dos toxicodependentes. Cada vez que vou até estas comunidades me surpreendo muito. A Diocese está presente, de algum modo, pois cada comunidade tem sua personalidade própria e ritmo. Não somos os únicos e, também, outras instituições existem, estão presentes e auxiliam como podem.

Quanto sofrimento na vida dos que são “envolvidos” pelas drogas e, consequentemente, para suas famílias. O flagelo das drogas continua a fazer estragos em formas e dimensões impressionantes. Ele é alimentado por um mercado vergonhoso, que atravessa as fronteiras nacionais e continentais. Continuam a crescer o perigo para nossos jovens. Papa Francisco recordou que a Igreja, fiel ao mandato de Jesus de ir a todos os lugares onde há um ser humano que sofre, não abandonou aqueles que caíram na espiral da droga, mas com o seu amor criativo foi ao encontro deles. “O exemplo dos muitos jovens que, desejosos de escapar da dependência da droga, se empenham em reconstruir as suas vidas, é um incentivo para olhar para frente com confiança”, disse nosso Papa aos participantes da Conferência Internacional Antidroga.

O caminho de recuperação dos que aceitam realizar esta nova gestação, de nove meses, é baseado num radical despojamento. Tudo é sóbrio: sem smartfone e sem meios de comunicação. O encontro é com o essencial da vida, com o sentido do viver. Um voltar-se para si mesmo, com irmãos de caminhada que estão juntos. Todos devem olhar com realismo para si mesmos e abrir-se ao arrependimento para confiar em Deus e no seu perdão. Normalmente, os alojamentos são muito simples, quase despojados, pois isto também ajuda na recuperação.

A pedagogia da recuperação baseia-se em três pontos principais: o trabalho, a disciplina e a oração. Cultivo da horta, limpeza interna, alimentação, roupa própria: tudo deve ser feito com o trabalho. Sem determinação, não há cura. Aceitar e sofrer os momentos difíceis, com disciplina. Os horários, na vida de quem viveu sem esta determinação, fazem muito bem. A vida precisa de um caminho de organização, com horários definidos, sem hesitação. Horários para tudo, para acordar, trabalhar, almoçar, orar, lazer e dormir. As regras são rígidas. É exigido respeito ao espaço e pertences dos companheiros, arrumar e manter pertences organizados, limpar o quarto todos os dias. É proibido mexer no que não é seu ou deixar qualquer coisa fora do lugar. O auxílio do diretor espiritual, das psicólogas e, sobretudo, dos monitores internos, que já passaram por este caminho, são essenciais. A oração também é imprescindível. Estudos bíblicos, reuniões sobre espiritualidade e a hora do terço fazem parte da programação. Deus é a grande segurança: “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará” (Sl 23,1). A enorme força que vem de Deus, move até o mais profundo da vida.

Não esqueçamos daqueles, que são nossos irmãos na fé e estão sofrendo. Eles são um dos flagelos do nosso tempo. Cada uma ou cada um que lá está, precisa de Deus e de cada um de nós.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta