Caminhar na presença de Deus

Neste tempo de pandemia, aprendemos ainda mais a caminhar na presença de Deus. Fomos convidados a rezar mais e sermos mais humanos, caridosos. Estamos nos sentindo necessitados de uma força maior. Como o salmista, “caminharei na presença do Senhor na terra dos vivos” (Sl 116,9). A verdade é que Deus está conosco sempre. Nunca se afasta de nós. Nas dificuldades e doenças, ele está nos fortalecendo. Porém, nem todos têm consciência e se abrem a esta presença, ao seu Espírito. Ele nos fez para a comunhão, para o diálogo.

Hugo de São Vítor (sec. XII) fala que o ser humano tem três olhos, que são três diferentes níveis de percepção da realidade. Primeiro é o olho da carne (oculus carnis). É o olho físico, corporal, com o qual vemos todo o sensível. O segundo olho é o olho da razão (oculus rationis). Com a inteligência captamos o mundo dos conceitos. Aprendemos as coisas espirituais e as virtudes. Contudo, ele fala de um olho da contemplação (oculus contemplationis). Com este, que precisamos aguçar, descobrimos as coisas divinas. Percebemos o mundo de Deus. Sentimos sua presença. Sabemos que nada existe sem ele. Deus está em toda a realidade, sempre, “porque nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). O tempo da pandemia nos pede que intensifiquemos o olho da contemplação, que nos ajuda ver o ser humano de modo real e claro, sem preconceitos. Através dele podemos perceber e experimentar quem somos e a presença de Deus.

Em Deus, pela fé, sentimo-nos acolhidos, amados. Estamos na comunhão com Cristo. Por que algumas pessoas não sabem e não se sentem amados por Deus? Claro, são tantas as realidades que nos desafiam. Partimos do nosso interior, que não silencia, que não oferece espaço para Deus se manifestar. A percepção de sua presença, fonte de todo o amor e sentido de nossa vida, pede um silêncio interior, um recolhimento. Nada é mais importante do que o olhar amoroso de Deus, que me chamou à vida, me acompanha e me encaminha até o fim.

Esta presença constante de Deus é a base sobre a qual rezamos. É, também, a base pela qual agimos. Quando oramos estabelecemos um encontro com Este com quem estamos, nos colocamos em sua presença, dialogamos com Ele. Esta base é essencial para que nossa oração seja sempre verdadeira. É simples rezar, basta olhar para aquele que nos ama e conversar com ele. Quando oramos, imaginamos o olhar e até o coração daquele com quem caminhamos. Daí que podemos conversar e dialogar sobre tudo que vivenciamos. Tiremos o desejo de pedir e pedir. Partilhemos a vida inteira e também o que nos preocupa. Em Cristo, sei que Deus está presente e conversa conosco.

Também, a presença de Deus provoca conversão, vida nova. Um cristão, dificilmente muda suas posições por ideologias, mas pela presença do rosto de Cristo, que manifesta o amor de Deus. A bem-aventurança “felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8), tem este sentido. O nosso caminho é a constante busca da purificação, da conversão ao modo de ser de Deus. Ao contemplar a Cristo, na sua bondade e misericórdia, nos tocamos no que não somos ainda. A presença de Deus nunca deve ser intimismo espiritual, mas provocação à mudança de vida, na prática, no cotidiano. A presença de Deus faz ver as injustiças e o pecado pessoal e social.

Caminhar na presença de Deus molda um jeito próprio de ser do cristão. Como diz Paulo, “continuai enraizados nele, edificados sobre ele, firmes na fé tal qual vos foi ensinada” (Cl 2,6).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta