Contar histórias e fazer memórias

Na solenidade da Ascensão de Jesus Cristo a Igreja celebra também o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Com a aceleração do processo de globalização o papa São Paulo VI, em 1966, começou a enviar uma mensagem para marcar este dia. O costume perdura até hoje chegando a 54º mensagem, que vale ser lida na íntegra, com o título: “Para que possais contar e fixar na memória’ (Êxodo 10,2). A vida faz-se história”.

Ascensão é ação de mover-se de baixo para cima, é elevação. Mais do que movimento físico espacial, a solenidade acentua que a missão foi realizada de forma exitosa. A trajetória de Jesus Cristo é uma história com finalidade performativa e não apenas informativa. Isto significa que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida. Por isso, todos os textos bíblicos e as orações conduzem os fiéis a exultar em ação de graças por causa da Ascensão do Senhor, mas recordam que o projeto de vida dos fiéis é a elevação, é voltarem-se às coisas do alto.

A ascensão da humanidade e de cada pessoa para mais vida, paz, igualdade, ternura, beleza e amor, requer auxílio. A mensagem do Papa Francisco para o Dia das Comunicações Sociais recorda que a narração de histórias boas desempenha um papel importante para a humanidade. “Precisamos respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos. Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros”.

A mensagem papal sublinha vários outros aspectos importantes da narração. Vale citar literalmente algumas frases: “Não tecemos apenas roupa, mas também histórias”. “O homem é um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias”. “Uma boa história é capaz de transpor os confins do espaço e do tempo: à distância dos séculos, permanece atual, porque nutre a vida”. “A Sagrada Escritura é a História de histórias. (…) é a grande história de amor entre Deus e a humanidade. (…) no centro está Jesus”. “De fato, re-cordar significa levar ao coração, “escrever” no coração”.

“Com o olhar do narrador – o único que tem o ponto de vista final -, aproximamo-nos dos protagonistas, dos nossos irmãos e irmãs, atores juntamente conosco da história de hoje. Sim, porque ninguém é mero figurante no palco do mundo; a história de cada um está aberta a possibilidades de mudança”.

Don Rodolfo Weber – Arcebispo de Passo Fundo