Com Cristo, subimos a Jerusalém

Há pouco recebemos em nossas cabeças as cinzas, com os dizeres: “convertei-vos e crede no Evangelho”. A espiritualidade quaresmal convida à conversão, a voltar novamente e, cada ano com mais intensidade, ao centro de nossa fé, o seguimento identificado do batizado com Jesus Cristo. Para isto, faz-se um convite especial: vamos com Cristo, subir a Jerusalém. Não se trata somente de um caminho geográfico, mas de uma peregrinação interior e social ao mesmo tempo. Queremos manter o olhar fixo e decidido, como o de Jesus, que o evangelista Lucas nos diz: “então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). É importante aceitar o convite de Jesus para ir com ele. Superar a tentação da indiferença religiosa ou até da acomodação. Ir com Jesus para Jerusalém para ser educado, catequizado por ele e o acompanhar em sua entrega, morte e ressurreição. E o mesmo texto do evangelho diz: “Estes puseram-se a caminho” (Lc 9,52).

No caminho para Jerusalém, Jesus vai iniciando seus discípulos sobre sua cruz, seu sofrimento e a alegria da vida nova da ressurreição. Por isso, na sua transfiguração, revela a sua identidade profunda: o “Filho amado”. Enquanto caminhamos com Jesus, vamos experimentando que o ser cristão, a conversão pedida na Quaresma, não é somente intelectual, mas vivencial: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34). De fato não nos tornamos autênticos discípulos de Cristo ficando “do lado de fora”, mas partilhando a vida. Mais ainda, a conversão cristã não é simplesmente uma mudança de hábitos, uma mudança moral, mas uma conversão para Deus e, a partir dele, uma vida moral coerente. Do contrário, não se pensa segundo Deus, mas com outros critérios humanos.

A conversão a Deus é sempre uma conversão ao evangelho. Portanto, a vida cristã é acolhida gratuita do dom do amor de Deus, que em Cristo nos perdoa. Com estes irmãos e irmãs formamos uma única família. Aproximação misericordiosa dos que não merecem nossa proximidade e amor. Amar sempre como Jesus, que nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Partilha dos bens com os que são “descartados” e “sobram” em nossa sociedade. Não estamos simplesmente diante de alguma proposta de vida fraterna mais autêntica, de uma reconciliação com os que não amamos o suficiente. Trata-se do reconhecimento e da acolhida da iniciativa de Deus que, por amor, reconcilia o mundo consigo e nos convoca à reconciliação fraterna. A causa é Cristo, que nos faz olhar os outros como irmãos. O católico, enquanto caminha, mantem sempre o olhar para Jerusalém: “Que alegria quando ouvi que me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor!’ E agora nossos pés já se detêm, Jerusalém, em tuas portas” (Sl 121,1).

Recordamos os dois sentidos essenciais deste caminhar, o batismo e a penitência. “A dupla índole do tempo quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal” (SC, n.109). Compreendido desta maneira, sabemos que precisamos cuidar com tudo o que nos distrai. Este é um sentido da penitência. Ao renovarmos o nosso batismo, acompanhando aqueles que se preparam para a sua celebração na Vigília Pascal e dos sacramentos da Eucaristia e Crisma no Tempo Pascal, nos convertemos para Cristo e, a partir deste fundamento, para uma vida fraterna e solidária, como nos ensina todos os anos a Campanha da Fraternidade. Recordemos nossa participação nos grupos de reflexão, tão bem elaborados, na confissão sacramental, na oração da Via-Sacra, no jejum, na esmola e, sobretudo, por uma vida intensa de oração. Cada católico deve dizer para si e para Cristo: vou caminhar contigo para Jerusalém!

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta