Agradecer e esperar

Sermos gratos, dizermos “muito obrigado”, nos ajuda a sermos mais felizes. Os gratos são mais felizes. Sabem conviver melhor e valorizam as pessoas. São mais empáticos e conseguem ver e sentir a presença e ação positiva com quem convivem. Sentem-se em paz e transmitem paz ao seu redor. A gratidão revela um coração capaz de reconhecer que não se basta a si mesmo. Está voltado para fora de si, para as pessoas e o mundo no qual está inserido. Reconhece que as outras pessoas e tudo o que o cerca não estão ao seu serviço, mas pelo contrário, tem uma missão servidora. Então, o outro é constitutivo do seu ser, é parte de cada um. Olhado de maneira diversa, o individualismo é um câncer que vai dobrando a pessoa sobre si mesma. Sim, o individualismo é competitivo, por isso ele mata, já no pensamento, antes de qualquer ação. “Tenho muito a vencer hoje” não é uma frase motivadora, mas sim, “hoje tenho muitos com quem conviver e aprender”.

O ritmo acelerado do nosso tempo talvez não nos permita o tempo necessário para este exercício consciente de dizer “obrigado”. Quem sabe, neste tempo propício de descanso e férias, tenhamos momentos de maior serenidade, para restaurar o corpo e o espírito. Com um pouco de reflexão nos damos conta de nossa ansiedade e, com ela, tudo o que machuca as pessoas. As palavras do Eclesiastes nos ajudam: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1). Uma palavra de sabedoria é concentrar-se em cada momento, no “agora” de nossa vida. Ao contemplarmos o modo como Jesus viveu o seu dia, nas suas peregrinações, vemos que ele valorizava cada momento, cada pessoa. Todos se sentiam acolhidos e para cada um a palavra certa. Lembremos o caso de Zaqueu, fitado e chamado por Jesus (cf. Lc 19) ou do tempo que Jesus gastou para permanecer e valorizar a Samaritana (cf. Jo 4). Mais impressionante são, ainda, as cenas da mulher com fluxo de sangue, que ousa tocar no manto de Jesus e este sente sua presença (cf. Lc 8) ou a sensibilidade de Jesus no momento de seu sofrimento extremo, na Paixão, ao consolar as mulheres que o seguiam e choravam (cf. Lc 23,28-31). Como Jesus, as pessoas que valorizam o momento presente e as pessoas com as quais convivem, são muito mais felizes e transmitem serenidade.

A gratidão por excelência se dirige a Deus. “Que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me tem dado? Erguerei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor” (Sl 115,3-4). Toda a oração cristã se resume na ação de graças. Quem, com sensatez, reconhece a Deus como Criador e Pai providente, sabe-se criatura e que tudo tem nele seu princípio e consistência. Ele não oprime ou diminui nossa condição humana, mas sua presença exalta nossa liberdade. Por isso, diz São Paulo: “Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos santos na luz.” (Cl 1,12). Quando o ano chega ao fim, recolhemos também as cruzes e dificuldades havidas. E todos as temos, uns mais outros menos. Nelas, também, Deus esteve e está presente. Por isso, o sentimento de gratidão faz olhar o futuro com esperança, visto que Deus nunca nos deixa abandonados. Como nos faz bem realizar uma espécie de “diário de gratidão” a Deus e às pessoas. Nos liberta de sermos queixosos e tristes, mas sim, atrai forças e entusiasmo para os desafios da vida. De fato, não há lugar para quem de tudo se queixa: de si próprio, da família, da Igreja, da sociedade… Nossa atitude primeira deve ser aquela que Deus pede a Abraão: “Tu caminha na minha presença” (Gn 17,1). Com toda a Igreja cantamos: Te Deum laudamus.

Feliz ano 2020, com muitas bênçãos de Deus!

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de 2020