No Menino Jesus, nossa identidade e missão

Como compreender este fundamental mistério de nossa fé cristã: Deus quis vir até nós e se fez homem, nascido da Virgem Maria? Enquanto o caminhar humano é uma incessante busca de Deus, eis que nós descobrimos, admirados, que não somos nós que o buscamos, mas Ele vem a nós, despretensiosamente, para manifestar seu amor, revelar quem nós somos e nos oferecer a salvação. São Paulo conseguiu dizer com palavras claras o que é o Natal: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos” (Gl 4,4-5). O mistério é divino, é de Deus que vem a nós, assumindo, incrivelmente, de uma maneira tão humilde a nossa humanidade, que não fosse pela fé, teríamos dificuldade de acreditar. Prestemos atenção nos fatos e personagens que a Escritura nos fala. Todo sentido do viver humano está aí contido, de maneira tão simples. Como nos diz o Prefácio do Natal I, “reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos”.

O “salto da fé”, que o Natal nos propõe, nos conduz numa dupla direção: para Deus e para nossa identidade. No pequeno Menino Jesus, Deus se revela como Criador e Redentor. “Admirável intercâmbio! O Criador da humanidade, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem. Feito homem nos doou sua própria divindade” (Liturgia das Horas, oitava de Natal). Ele se abaixa e vem até onde podemos alcançá-lo, para assim sermos salvos. Por isso, toda a fé cristã tem em Jesus Cristo o Caminho, o meio pelo qual podemos saber e falar algo de Deus, o inefável. Porém, temos outra direção, para nós mesmos, descrita de maneira clara por São João: “Vede que imenso amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos tratados como filhos de Deus; e, em realidade, somos filhos de Deus! [...] Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, todavia, sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, pois o veremos como Ele é” (1Jo 3,1-2). Em nós, o Filho nos oferece, para quem o acolhe pela fé e o batismo, um gérmen de eternidade, somos filhos no Filho. Porém, ainda não plenamente, mas com um caminho humano, cheio de imperfeições e buscas, para um dia recebermos de Deus a plenitude da filiação. Aqui, também, a prece da missa nos ajuda: “No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nos tornamos eternos” (Prefácio do Natal III). Assim, o Natal é festa da alegria!

Aqui reside um grande desafio, de irmos além da admiração e, muitas vezes, da emoção diante dos fatos bíblicos, das canções natalinas e, também, de nossos gestos de solidariedade. O Natal é um convite à profissão de fé neste Deus de amor, que nos quer seus filhos e filhas. Nele, portanto, temos nossa identidade revelada, como nos diz o Concílio Vaticano II: “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. [...] Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime” (GS 22). Sim, também nossa missão brota desta identidade: como filhos, formamos em Cristo uma grande família. Aprendamos a amar, acolher, estarmos próximos, construir a paz e sermos nesta sociedade cada vez mais secularizada, sinais visíveis de nossa identidade cristã.

Feliz e abençoado Natal a todos os diocesanos e amigos.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta