A casa, símbolo eclesial

A casa é um lugar seguro, de referência no meio do anonimato e da sensação de orfandade na sociedade pós-moderna. A tendência atual na organização social é uma visão individualista da vida, com dificuldades de estabelecer vínculos, relações, até mesmo com as figuras mais próximas na família. A cultura urbana favorece o anonimato, o isolamento. Porém, permanece no ser humano o desejo de pertencimento, do vínculo, de raízes familiares, do acolhimento, de sentir-se amado, de ser chamado pelo nome e de ter um espaço para compartilhar a história pessoal sem sofrer bulling. Humanamente precisamos deste espaço que, por suas características, torna-se um lar, lugar de vida.

A casa é, também, um símbolo eclesial. Ela recorda-nos, a partir das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019-2023), que é um espaço privilegiado para viver as relações fraternas que a fé cristã propõe. A grande inspiração vem da Sagrada Escritura, quando os primeiros cristãos, como Paulo, organizaram comunidades a partir das casas. Paulo fala da comunidade que se reúne na casa de Priscila e Áquila (1Cor 16,19), dentre tantas outras. Aquele que é batizado estabelece um vínculo indissolúvel com Jesus Cristo e, nele, com os outros irmãos e irmãs. Portanto, teoricamente, o cristão tem em sua essência o viver em comunhão, basear sua vida em relações que têm a marca da caridade. Um estilo de vida eclesial assim, tem como característica a vida simples, onde o acento se encontra nas relações fraternas e na Palavra.

Este modo de viver a fé tem ajudado os primeiros cristãos a vencerem as divisões sociais. As comunidades das casas reuniam tanto os pobres como pessoas com maior condição econômica. Estabeleciam relações que iam além da própria família. A vivência que se estabelece é sinal da comunhão trinitária do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Portanto, ela supera a amizade humana e também os laços familiares, sendo “um solo sagrado”, imagem de Deus comunhão e missão. Afirmou Francisco: “Criar ‘um lar’, em suma, é criar uma família; é aprender a se sentir unidos aos outros mais além dos vínculos utilitários ou funcionais, unidos de tal maneira que sintamos a vida um pouco mais humana” (ChV, n. 217).

A casa dos cristãos será sempre aberta, voltada para fora, em missão. Suas portas se abrem para entrar e sair. Acolhem os que chegam, mesmo quem não cumpre todas as regras doutrinais. Mas também estão abertas para ir em missão, anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho, como vemos o envio de Paulo e Barnabé, pela comunidade de Antioquia (cf. At 13,1-3). Com certeza, a Igreja das casas é mais próxima das pessoas, menos clerical e valoriza mais os ministérios leigos. “Casa é aqui a imagem de maior proximidade às pessoas, o lugar onde vivem, mesmo aquelas que só têm a rua como casa. Ela indica a proximidade relacional entre as pessoas que ali convivem. Indica igualmente a necessidade da Igreja se fazer cada vez mais presente nos locais onde as pessoas estão, seja onde for” (DGAE, n. 6).

Porém, este novo estilo de viver a fé exige uma grande mudança de mentalidade de todos nós, batizados. Apostar, de verdade, na força evangelizadora e humanizadora dos grupos de reflexão, onde acontece a vida, com seus gestos simples e cotidianos. Temos o grande desafio de acolher, não julgar, evitar fofocas e ter paciência consigo mesmo e com os outros. Apostamos neste caminho e apoiamos sua concretização em nossa Diocese.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta