Um modo de vida coerente

Na pluralidade das visões de mundo e de pessoa humana em que vivemos, faz-se importante o discernimento, para que cada um tenha clareza dos valores fundamentais nos quais alicerça sua vida. Na definição desta identidade, lugar essencial tem a nossa fé, conscientemente esclarecida e assumida. Com frequência, nos deparamos com situações de ambiguidades pessoais, que são incoerências com os valores fundamentais que a pessoa professa. Claro, falamos aqui, a partir de uma perspectiva de quem optou por alicerçar a vida a partir de uma visão cristã, isto é, a partir de Jesus Cristo. A fidelidade a uma opção de vida é sempre condição para uma vida feliz e para um diálogo frutuoso. A mistura de várias religiões, na maioria das vezes, só traz confusão. Num Estado laico, como o nosso, a variedade das opções não é motivo para discriminação, mas princípio que rege a convivência humana, no respeito e na complementariedade.

Nossa vida espiritual tem seu foco em Jesus Cristo. O caminho da maturidade da fé se dá com lentidão, paciência, integrada com a vida e a comunidade eclesial. De fato, a fé cristã nos oferece uma antropologia, que compreende a pessoa humana na sua sacralidade, amada e visitada por Deus, sempre ligada a Ele. A vida deve ser protegida e salvaguardada desde sua concepção. Porém, também salva por Cristo gratuitamente para poder servir sem interesses. Esta antropologia tem consequências morais, pois nossa fé nos ajuda a compreender a fraternidade como constitutiva de nossa vida. Todo individualismo narcisista é anticristão. O outro, sobretudo o rosto de quem sofre e é pobre, sempre nos provoca à conversão, nos convida à acolhida. Isto diz respeito ao modo como concebemos, tratamos, os mais pobres, os migrantes, por exemplo. Tantas vezes a Doutrina Social da Igreja tem nos recordado, por meio dos papas, do princípio da solidariedade universal, da compreensão de que somos uma grande família. Assim, igualmente coerente é todo o empenho pela construção de relações humanas, desde a família até as relações internacionais, baseadas no desejo de paz. Somente a paz é expressão do ser cristão, de Deus.

Neste sentido, não é cristã a compreensão de Deus unicamente como uma energia cósmica, que tudo perpassa e congrega. A fé cristã não é panteísta. Deus é Outro, Criador e Redentor, além de toda criatura. É Pai que nos ama como seus filhos em Cristo. A nossa comunhão com tudo o que existe tem seu ponto central na comunhão íntima com Jesus Cristo e, por ele, com o Pai e toda a humanidade e criação.

Outra maneira de fugir do foco e da coerência da fé em Jesus Cristo é um antropocentrismo exagerado, que falsifica a compreensão do ser humano e suas relações com Deus e com a natureza. De fato, quando não nos reconhecemos como criaturas de Deus, habitantes de um mundo que não nos pertence, facilmente instrumentalizamos e submetemos o outro e a natureza. Usamos e descartamos. Serve o que nos é útil. Deus, contudo, não se encaixa em nossas pretensões utilitaristas, pois age sempre de maneira gratuita.

A imagem do sistema solar, que os planetas giram em torno de um centro, que atrai e que mantém a todos na sua órbita, é um belo exemplo. Se um dos planetas não girasse no seu espaço, provocaria um colapso total no sistema. Assim, nossa fé parte e tem seu sentido em Jesus Cristo, como nos diz São Paulo: “o desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra.” (Ef 1,10).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta