Ranking da FAO indica que Brasil utiliza menos defensivos agrícolas que países da Europa

Organização mostra que o país ocupa a 44ª posição na lista de países que utilizam os defensivos. No consumo em função da produção agrícola, Brasil cai mais de posição: 58ª

O uso dos defensivos agrícolas no Brasil é, há algum tempo, tema de discussões fora das lavouras. Há quem afirme que o uso é indiscriminado e descontrolado por parte dos produtores rurais. O dia 3 de dezembro é todos os anos dedicado ao ‘combate aos agrotóxicos’. A data faz alusão a um acidente ocorrido em Bhopal, na Índia, na década de 1980, quando mais de 20 toneladas de gases tóxicos utilizados na fabricação de um pesticida, conhecido como Sevin, vazaram da fábrica.

Para discutir e acompanhar a situação do uso de agrotóxicos, o Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul (MPT-RS) e o Ministério Público do Estado (MP/RS) criaram o Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos. O fórum reúne 60 entidades, entre públicas e privadas. Uma formas de acompanhar o uso é através da realização de audiências públicas.

Entretanto, há dados e números que comprovam que a utilização de defensivos no Brasil não é tão grande quanto parece. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) órgão ligado a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil aparece em 44º posição no ranking de países que utilizam as substâncias químicas. Os dados da entidade ainda mostram que o consumo relativo no país foi de 4,31 quilos por hectare cultivado em 2016.

Sob o critério de consumo de defensivos em função da atividade agrícola, os brasileiros estão na 58º posição, com o uso de 0,28 quilos de defensivo por tonelada de produtos agrícolas. No balanço, foram utilizados os valores de produção de grãos, fibras, frutas, pulses, raízes e nozes e o consumo total de defensivos disponíveis no portal de estatísticas da FAO.

Entre os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil, aparecem Países Baixos (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha), Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha), Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha).

Para a professora do curso de agronomia da Universidade de Passo Fundo (UPF), com doutorado em fitopatologia pela The Ohio State University, nos Estados Unidos, Jaqueline Huzar Novakowiski, existe desinformação a respeito do uso dos defensivos. “Muitas críticas são provenientes de pessoas do meio urbano que não tem qualquer conhecimento sobre o meio agrícola e acabam opinando e influenciando muitas outras pessoas. E isso acaba criando pânico na sociedade e críticas aos defensivos agrícolas”, diz.

Sobre a comparação com países europeus, Jaqueline explica que os sistemas de produção são diferentes. No Brasil, país tropical e com duas a três safras agrícolas por ano, a incidência de pragas, doenças e plantas daninhas é maior, o que pode reduzir a produtividade das culturas.

CONTRIBUIÇÃO DOS DEFENSIVOS PARA ALTAS PRODUTIVIDADES
A professora destaca que os defensivos – comumente chamados de ‘agrotóxicos’ são uma ferramenta importante para a produção em larga, mas que o produtor não tem o poder de escolher se quer usar ou não, é necessário para manter a lavoura adequada. “Os defensivos agrícolas incluem produtos herbicidas, fungicidas e inseticidas, que auxiliam no controle de plantas daninhas, doenças e pragas, respectivamente. Nenhum produtor rural aplica herbicida, inseticida e fungicida porque quer, a aquisição dos produtos e a aplicação representam um custo elevado no processo produtivo”. “As cultivares disponíveis no mercado nem sempre apresentam níveis de resistência genética elevada e, assim, não são suficientes para garantir a obtenção de elevadas produtividades e proporcionar redução no custo dos alimentos”, completa.

MITOS E VERDADES
Ao longo dos anos, diz a professora, diversas pessoas têm afirmado que os alimentos orgânicos são melhores que os alimentos produzidos da forma convencional. Contudo, não há indicativos de que realmente sejam. “Vários estudos têm sido realizados e não se tem constatado que o produto orgânico, é nutricionalmente, superior ao produto convencional. O que se tem é um maior custo de produção do produto orgânico e maior valor agregado, o que acaba encarecendo esses produtos”, finaliza.

Muitas críticas são provenientes de pessoas do meio urbano que não tem qualquer conhecimento sobre o meio agrícola e acabam opinando e influenciando muitas outras pessoas. E isso acaba criando pânico na sociedade e críticas aos defensivos agrícolas

É POSSÍVEL UTILIZAR MENOS DEFENSIVOS?
Para responder a pergunta do subtítulo, Jaqueline salienta que é preciso o agricultor trabalhar em conjunto ao engenheiro agrônomo para definir as melhores estratégias de manejo. “Cada caso é um caso, não tem como generalizar, mas práticas como rotação de culturas e monitoramento durante a safra são recomendadas”.

CONTAMINAÇÃO
A intoxicação pelo uso de defensivos pode ocorrer com qualquer produto. A professora explica que a contaminação pode se dar de forma oral, pela ingestão; dérmica, pelo contato com a pele e via respiratória. “O glifosato é um herbicida e um dos produtos mais utilizados, mas não é o único. Se o produtor rural seguir as recomendações da bula e utilizar equipamento de proteção individual (EPI) pode-se minimizar o risco de intoxicação”, finaliza.

PERGUNTAS FREQUENTES AO MAPA
No site do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) existe uma página onde é possível ler as principais perguntas feitas sobre os defensivos agrícolas. Confira abaixo algumas perguntas e respostas.
– Os alimentos produzidos no Brasil são seguros quanto aos resíduos de defensivos?
Sim, nossos alimentos são testados e aprovados. Quando há resíduos, estão muito abaixo do que é permitido pelos códigos internacionais. Os alimentos produzidos no Brasil são exportados para 160 países, e testados tanto na saída do Brasil quanto na entrada em outros países. O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), avalia constantemente a segurança dos alimentos em relação aos resíduos de defensivos agrícolas;

– Com mais defensivos disponíveis, vai aumentar o uso nas lavouras?
Não, ter mais marcas disponíveis no mercado não significa que se vai usar uma quantidade maior do produto. O que determina o consumo é a existência ou não de pragas, doenças e plantas daninhas. Os agricultores querem usar cada vez menos em suas plantações, pois os defensivos são caros e representam 30% do custo de produção;

Como está o Brasil em relação a outros países?
– Os critérios usados pelo Brasil são mais rígidos do que os de outros países. Se fôssemos usar a classificação internacional, o Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos, conhecido como Sistema GHS, o índice de pesticidas classificados como extremamente tóxicos no Brasil passaria de 34% para cerca de 14%.

Diário da Manhã