Ainda vale a pena plantar trigo?

Dúvida se semear a cultura de inverno é viável – tanto financeiramente quanto no tamanho da produção – ronda o pensamento do agricultor, que chega ao fim do mês e precisa pagar as contas. Estudo feito por pesquisador indica que, sim, é possível tornar o trigo uma cultura rentável e com perspectivas positivas

O trigo, mesmo com os percalços de mercado, continua sendo uma cultura importante para o inverno e para o país. Nessa safra, o Rio Grande do Sul semeou 793,4 mil hectares. De acordo com o último levantamento da Emater/RS-Ascar, de quatro de julho, o plantio tinha avançado 15 pontos percentuais em comparação com a semana passada. Ainda conforme o órgão gaúcho, 97% das lavouras estão em germinação e desenvolvimento vegetativo.

No entanto, a área do cereal de inverno poderia ser maior na avaliação do presidente da Comissão de Trigo da Federação de Agricultura do Estado (Farsul), Hamilton Jardim. “O trigo é fundamental para a sustentabilidade do sistema produtivo e no Rio Grande do Sul, infelizmente, a cultura está ocupando um pequeno espaço comparado ao que se planta no verão. O RS, de maneira geral, tem aptidão para trigo e não se pode olhar ele [trigo] isoladamente”, afirma.

Jardim esteve em Passo Fundo na semana passada para o Fórum Nacional do Trigo, programação paralela a 13ª Reunião da Comissão Brasileira em Trigo e Triticale (RCBPTT), que ocorreu na Universidade de Passo Fundo. Na oportunidade, Hamilton conversou com a reportagem do Diário da Manhã e expôs aos técnicos, produtores e cadeia produtiva do cereal um tema considerado importante pela Farsul: as intervenções governamentais. “O trigo ainda é uma cultura que está no amparo da política de garantia de preços mínimos do governo, há muitos anos, mas é uma cultura que nesse momento o governo tem olhado com muita preocupação haja vista a instabilidade ao longo dos anos”.Queremos mostrar para o governo a importância da cultura, de ela estar no abrigo da política de preços mínimos, mas também a importância de nós corrigirmos aquilo que o atual governo está detectando

Para ele, as políticas aplicadas de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (PEPRO) e Prêmio para Escoamento do Produto (PEP), que ocorreram na safra 2017/2018, por exemplo, não devem acabar, mas devem ser reavaliadas. “Isso eu acredito que não irá acabar, mas temos que entender que estamos dentro de uma economia liberal e isso foi o que a ministra Tereza Cristina [da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] nos chamou há exatamente um mês em Brasília para nos colocar algumas responsabilidades para a cadeia”. “Queremos mostrar para o governo a importância da cultura, de ela estar no abrigo da política de preços mínimos, mas também a importância de nós corrigirmos aquilo que o atual governo está detectando”, completa.

Ao representar a Farsul e a Câmara Setorial do trigo do Ministério da Agricultura, Hamilton quis deixar claro a importância de toda a cadeia do trigo, que envolve desde o produtor rural até os moinhos, diminuir a dependência de importações do cereal. Conforme dados trazidos pelo presidente da Comissão de Trigo, neste ano, para suprir o consumo interno, serão importadas mais de 6,5 milhões de toneladas de trigo. “É muito dinheiro, dinheiro que poderia ficar aqui no Brasil. Temos que focar no que podemos fazer para que a cultura se torne mais rentável e com a recuperação da economia brasileira”, pontua.

RETORNO FINANCEIRO: MITO OU VERDADE?
Para o pesquisador em economia rural da Fundação ABC, do Paraná, Cláudio Kapp, o tão esperado retorno financeiro do trigo pode existir. Isso porque Cláudio analisou 24 safras de trigo ao longo dos anos. Com as informações, oriundas de um banco de dados de três cooperativas – Capal, Frísia e Castrolanda – Kapp consegue observar a cultura do trigo sob o viés financeiro. “Dentro da metodologia que usamos, o trigo trouxe um fluxo positivo, trouxe uma rentabilidade na média durante essas 24 safras. Têm algumas safras que é negativo, que o produtor perdeu dinheiro, outras que deram um resultado satisfatório, que ele ganhou dinheiro. As safras que ele [produtor] ganhou dinheiro superaram aquelas em que ele perdeu”, explica.

Os resultados da pesquisa mostram que o trigo obteve rentabilidade média acima de R$200 por hectare, o que, para Cláudio, demonstra como cereal pode ser uma boa opção para o inverno. “Só que o psicológico do produtor às vezes guarda mais as safras que ele perde dinheiro. Na média, tirando os anos bons e ruins, o trigo trouxe um resultado positivo. Temos que entender que esse resultado positivo acontece dentro de um sistema de produção para ver se no final do ano, quando se fecha a fazenda no final do ano, ele ajuda a melhorar os níveis de rentabilidade”, argumenta.

Queremos trazer para a discussão de que sim, o trigo é uma opção e pode ser uma opção financeiramente atrativa para o inverno

“A NOSSA DISCUSSÃO É PARA QUE NÃO SEJA ELIMINADO”
O pesquisador Cláudio Kapp, assim como Hamilton Jardim, participou da 13ª Reunião da Comissão Brasileira em Trigo e Triticale (RCBPTT), onde mostrou para o público o resultado da pesquisa. “No final das contas, é difícil o produtor fazer 100% da área de trigo todo ano, a nossa discussão é para que não seja eliminado de cara essa cultura com uma metodologia que não consideramos adequada. Queremos trazer para a discussão de que sim, o trigo é uma opção e pode ser uma opção financeiramente atrativa para o inverno”, salienta.

Kapp acredita que o produtor que plantou trigo nessas 24 safras independentemente de clima ou mercado, teve resultado positivo simplesmente por ter plantado.

13ª REUNIÃO DA COMISSÃO BRASILEIRA EM TRIGO E TRITICALE
A reunião ocorre anualmente e é uma oportunidade em que a cadeia do trigo se une para discutir temas importantes, como a viabilidade econômica, neste ano pautada pela pesquisa de Kapp, e os avanços na pesquisa. Os dois eventos – 13ª RCBPTT e o Fórum do Trigo foram uma realização da Biotrigo Genética, com o apoio da Embrapa Trigo.

Diário da Manhã