Educar para a caridade

O tempo quaresmal recorda-nos que o processo de educação da vida cristã tem um ponto convergente para todos: a vivência da caridade. Recordou-nos Paulo: se não tiver amor, nada seria (cf. 1Cor 13,2). Para este fim, não existe uma cartilha e também não é fruto de um ensinamento teórico, mas são vivências familiares, escolares e comunitárias que vão formando um estilo de vida caridoso. O Papa Francisco, na Amoris Laetitia, documento pontifício sobre a família, dedicou um capítulo para comentar o hino à caridade de Paulo (cf. 1 Cor 13,4-7) exatamente para ajudar a compreender que a dinâmica do amor passa pela concretude das relações familiares. O certo é que a caridade é a marca de pessoas maduras, que perpassa a vida pessoal, familiar e social.

Em primeiro lugar, é preciso cultivar o interior. O vazio interior pode ser fonte de depressão, pois não consegue reconhecer que somos, em primeiro lugar, visitados por Deus, que somos únicos. Dizia Santo Agostinho, maravilhado e agradecido, que “Deus é mais íntimo a nós, que nós mesmos”. A cura desta tentação da solidão é o primeiro passo a ser dado. A abertura a Deus, pela fé, abre para a Transcendência e para os irmãos e irmãs. “Se em minha vida falta o contato com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas se em minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus” (Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 18). O progressivo conhecimento e vivência da fé produz uma fascinação por Jesus Cristo, pela sua pessoa e pelo seu projeto. Sua vida foi marcada unicamente pelo amor, até o fim (cf. Jo 13,1). Porque totalmente doada, interpela, provoca. Como consequência, abrem-se horizontes. Quem tem fé aprende a sonhar e buscar ser feliz e fazer o mundo ser mais fraterno.

Ter a capacidade de hierarquizar as virtudes ajuda a buscar o essencial. Não, o cristianismo não é uma lista de proibições e um peso que é colocado nos ombros do ser humano. É uma proposta positiva: “Vai, faze isto e viverás” (Lc 10,28). Pois o que conta realmente é “a fé agindo no amor” (Gl 5,6), nos diz São Paulo. Ele próprio diz: “quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei (…) Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Rm 13,8.10). Concretamente, o mundo consumista e hedonista nos propõe voltarmo-nos sobre nós mesmos, nossos desejos, direitos e nossa felicidade. Educar para superar a indiferença. Contemplar os rostos sofredores e ouvir suas histórias. Aprender a respeitar quem pensa diferente, quem professa outra fé, quem não tem as condições econômicas que eu tenho. A caridade sempre terá a marca da gratuidade, não visa outros objetivos. Também não se reduz a doar as sobras, para tranquilizar a consciência. Este caminho precisa ser treinado, vivenciado, refletido e internalizado.

Nós, famílias e comunidades católicas, temos um irrenunciável dever de formar pessoas caridosas, misericordiosas, capazes de amar sempre. Todo o caminho de formação, convívio, celebração, toda a espiritualidade que cultivamos em nossos grupos, movimentos e pastorais, devem nos conduzir a sermos caridosos. Afinal, “agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (1 Cor 13,13).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta