Quaresma, um caminho para a santidade

Os cristãos caminham para a Páscoa “tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus” (Hb 12,2). O objetivo da Quaresma é uma preparação intensa, profunda e orante para a celebração da Páscoa do Crucificado-Ressuscitado. No centro está o desejo, sempre crescente, de uma fé mais madura, provada, resumida na dupla dimensão que a liturgia nos propõe: a penitência e a renovação do nosso batismo (cf. SC 109). É um itinerário de conversão para acolhida da graça de Deus, que no mistério pascal quer reconciliar e renovar o mundo consigo. Este tempo constitui-se num verdadeiro caminho de santidade, como, por sinal, reza-se nos prefácios das missas deste tempo: “Para renovar, na santidade, o coração de vossos filhos e filhas, instituístes este tempo de graça e salvação” (Prefácio da Quaresma II). Também rezamos: “Pela penitência da Quaresma, corrigis nossos vícios, elevais nossos sentimentos, fortificais nosso espírito fraterno e nos garantis uma eterna recompensa” (Prefácio da Quaresma IV). Resumidamente, a espiritualidade quaresmal baseia-se em três atitudes básicas: o jejum, a oração e a esmola.

O jejum é a primeira atitude proposta. Embora existam alguns dias em que o jejum é prescrito, seu sentido não se esgota aí. Hoje o jejum toma um sentido de muita profundidade espiritual: é a capacidade de renúncia e espera. Em tempos tão contraditórios onde convivem a abundância e a absoluta carência, muitas pessoas nem sabem o significado da privação de algo, enquanto tantos outros são privados do básico para viver. A saciedade à exaustão, sobretudo pela constante oferta de produtos para consumir, dificulta o sentido espiritual da compreensão de nossa pequenez, de nossa incompletude, da permanente falta que carregamos conosco, pois vivemos na tensão para a plenitude, para o banquete do Reino. Enquanto isto, o jejum, até de alimentos, nos faz perceber, de maneira solidária as necessidades dos outros, nos permite olhar para além de nós mesmos e sermos misericordiosos. Por outro lado, sabemos que o jejum que podemos realizar assume diferentes possibilidades, mas de palavras inúteis; do uso das redes sociais em excesso; a moderação no consumo, pensando em ajudar os pobres; uma característica da personalidade que pede uma especial atenção, como a intolerância ou a raiva.

A segunda atitude é a oração. O rico simbolismo litúrgico e as escolhidas leituras bíblicas são a principal indicação. O ideal é seguir a liturgia todos os dias, sobretudo para quem tem possibilidade da missa cotidiana. Mas, também, o exercício mais intenso da prática de oração individual, do silêncio contemplativo diante do sacrário ou diante do Crucificado, num diálogo que revela nossa pequenez e a grandeza misericordiosa de Deus. Na nossa oração, participamos da oração de Jesus ao Pai e nos dispomos melhor a fazer a vontade de Deus. Aqui, recordamos a Via-Sacra, a celebração penitencial com confissão sacramental e as devoções marianas.

A terceira atitude é a esmola ou a caridade. É a dimensão horizontal de nossa fé.

“A penitência quaresmal não deve ser apenas interna e individual, mas também externa e social” (SC 110). O caminho da oração e do jejum, para ser autêntico, deve nos levar à caridade, à misericórdia. Pois, “a misericórdia é a chave do céu” (GE n.105). Esta é a atitude talvez mais difícil para nós vivermos, pois exige um voltar-se para fora e olhar para os pobres e para as estruturas sociais pecaminosas. A Campanha da Fraternidade de cada ano, que é para todos os católicos do Brasil, situa-se nesta atitude fundamental.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta