A fé que oferece sentido à vida

A condição humana que hoje vivemos é de uma “sociedade do cansaço”, por se caracterizar por um “exagero de positividade” e pela “pressão do desempenho” (cf. Han, Byung-Chul, 2017). Tendo-se ilusoriamente libertado da religião, o homem moderno tornou-se escravo de si mesmo. A concorrência pelo desempenho e pelo sucesso profissional-econômico é uma exigência muitas vezes insuportável, produzindo esgotamento e depressão. O fato de não corresponder aos ideais superelevados, faz com que o sujeito se explore a si mesmo, até consumir-se totalmente e, não raro, produz pessoas intolerantes e agressivas, que não conseguem suportar o mínimo de frustração. O homem moderno, senhor e soberano de si mesmo, não é livre. Em linhas gerais, a sociedade, baseada no ideal da liberdade, não é nem livre e nem libertadora e fraterna. Antropologicamente, vive-se um egoísmo agudo, uma autorreferencialidade frustrante.

A crescente tendência ao secularismo, de quem constrói sua vida sem referência a valores transcendentes e a qualquer religião, empobrece a vida. Favorece a sedução por uma lógica perversa, na qual a exigência da aquisição do que é oferecido pelo mercado para estar sempre atualizado, não deixa a pessoa sentir a alegria da vivência da simplicidade do cotidiano. “Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir” (Francisco, Laudato Sí, n. 204). Como quebrar esta lógica?

Um novo estilo de vida supõe a capacidade de sair de si, quebrar “a crosta do egoísmo”, romper com a autorreferencialidade. Humanamente, compreendemos que a alteridade e a solidariedade formam o ser humano naquilo que ele tem de melhor: a caridade. A fé cristã abre um horizonte amplo, que ouve e olha para o Outro, para Deus, e procura deixar ressoar sua voz para ser uma luz, o sentido para a vida. A atitude é erguer os olhos e ver as pessoas e o mundo que nos cerca, com quem convivemos. Colocar-se num caminho de fé, não somente um vago sentimento espiritual, nos permite ter um horizonte, que é fonte de esperança, e que não se esgota aqui, no agora, no mensurável. Por outro lado, faz ver a vida com mais simplicidade, com sentimento de gratidão e alegria pelos pequenos gestos diários na convivência com as pessoas. De fato, tantas vezes afirmou nosso Papa, o evangelho de Jesus Cristo é fonte de alegria, alarga os horizontes. A fé não é sinônimo de obscurantismo, mas uma luz que permite ver melhor e mais longe. Neste sentido, a própria organização social adquire uma nova face, pois, para quem crê, o relacionamento entre as pessoas não se dá pela competição e o prêmio como um mérito. A vida social se preocupa pela caridade, como princípio inclusivo de todos, numa organização social que olhe para todos e construa pontes e não muros de separação.

Enfim, procuremos testemunhar aos nossos adolescentes e jovens um estilo de vida mais sóbria e feliz. Se cultivarmos um autêntico caminho de vida cristã, poderemos superar uma vida autocentrada e, na comunhão fraterna, desenvolver uma “humildade sadia e uma sobriedade feliz” (Francisco).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta