7 e 10 de Fevereiro – datas para compreender o Rio Grande do Sul

Há 263 anos dois fatos ocorreram entre os dias 7 e 10 de fevereiro de 1756 e que explicam toda a história da formação do Estado do Rio Grande do Sul. Para compreender estes acontecimentos é necessário voltar muito tempo no passado.

A mais de 10.000 anos vivem povos nativos em nosso estado, bem como em toda a América. No estado os da Nação Guarani entraram a cerca de 2.500 anos ocupando uma ampla área na territorialidade.

Quando do descobrimento da América em 1492 e o sucessivo Tratado de Tordesilhas de 1494 deixou todo o território rio-grandense do lado espanhol. Mais tarde em 1609 jesuítas de base hispânica começaram a fundar Reduções na territorialidade e em 1626 fundam a primeira do lado esquerdo do rio Uruguai – São Nicolau. Neste período fundam 18 destas comunidades, as primeiras do Estado.

Atacados pelos Bandeirantes se deslocam para o outro lado do rio Uruguai, onde ficaram 45 anos e retornaram fundando os chamados 7 Povos das Missões a partir de 1682. Ocuparam todo o Estado com suas estâncias e ervais. Um bom exemplo, neste ano passado foi redescoberta uma cruz missioneira em São José dos Ausentes – local que era o final da Estância da Vacaria dos Pinhais – hoje a grande região da cidade de Vacaria. Do mesmo modo seguiam as estâncias até a Lagoa dos Patos.

Formaram os Jesuítas e Guaranis o “primeiro estado industrial da América” como disse Montesquieu, um dos principais escritores do mundo, juntamente com Voltaire que chamou de “triunfo da humanidade” o projeto. Os principais artigos que exportavam era a erva-mate, o fumo, o algodão, o açúcar, os tecidos de algodão, os bordados, as rendas, os objetos trabalhados em torno, mesas, armários, e baús de madeiras preciosas, esculturas, peles, curtumes e arreios de couro, rosários e escapulários, mel, frutas de muitas espécies, cavalos, mulas, e carneiros, assim como e excedente de diversas indústrias, como a de instrumentos musicais. Todos eram vendidos à Europa, Corrientes, Buenos Aires e Lima-Peru. Importavam produtos manufaturados e metais. Toda a produção era orientada para a satisfação das necessidades do todo.

Na Europa, entre os reinos de Portugal e Espanha, havia muitas pendências de divisas territoriais na meta dos anos 1700. Os Luso-brasileiros haviam fundado a cidade de Rio Grande somente em 1737, ou seja, 111 anos depois da primeira missioneira de base espanhola. A base portuguesa brasileira sempre sonhou em levar a divisa até o rio Uruguai. No Tratado de Madri de 1750 previa que o Território ocupado pelos jesuítas e guaranis seria entregue a Portugal e deveriam sair, enquanto Portugal entregaria a Colônia de Sacramento aos espanhóis.

Com a troca prevista no Tratado os índios não aceitam e de 1753 a 1756 ocorre a Guerra Guaranítica. No dia 7 de fevereiro de 1756 ocorreu a morte do principal líder nativo e principal herói missioneiro – Sepé Tiaraju, hoje um dos principais heróis do Brasil.
1- Lei do Estado do Rio Grande do Sul, número 12.366 de 03 de novembro de 2005, que declarou SEPÉ TIARAJU como Herói Guarani, Missioneiro e Rio-grandense. Inclui o dia 07 de Fevereiro no Calendário Oficial de Eventos do Estado.
2- Lei Federal número 12.032 de 21 de Setembro de 2009, que inscreveu o nome de Sepé Tiaraju no Livro dos Heróis da Pátria Brasileira.
3- Documento oficial do Vaticano de 24 de abril de 2017 tornou Sepé Tiaraju, Servo de Deus, primeiro dos três passos para sua canonização.
Durante muito tempo algumas pessoas chegaram a dizer que Sepé Tiaraju não havia existido e que era uma figura lendária, porém as pesquisas demonstram que pelo menos em 4 relatórios da Guerra Guaranítica os seus relatores o veem: O primeiro relatório foi escrito por José Custódio de Sá e Faria no seu Diário da Expedição e Demarcação da América Meridional e das Campanhas das Missões do Rio Uruguai (1750-1761). O segundo relatório português foi editado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, em 1853, que é o Diário da Expedição de Gomes Freire de Andrada às Missões do Uruguai, pelo Capitão Jacinto Rodrigues da Cunha – Testemunha Presencial. O terceiro relato, com a visão espanhola, escreve Dom Francisco Graell no seu livro Passado Missioneiro, no Diário de um Oficial Espanhol. Finalmente o quarto relato e o mais contundente e desconhecido do mundo Luso Brasileiro, o do Jesuíta que ficou responsável por relatar em nome da Companhia de Jesus, Tadeo Xavier Henis, no seu “Diário Histórico da Rebelião e Guerra dos Povos Guaranis, Situados na Costa Oriental do Uruguai do Ano de 1754”.

Os três primeiros relatórios escritos pelos inimigos foram os que mais os brasileiros leram, Todos descrevem a figura de Sepé em batalha e sua importância naquele contexto histórico, porém o mais próximo e escrito por amigo, é a descrição do padre Henis, jesuíta da redução de São Lourenço, que conta detalhes que os inimigos jamais escreveram, como o que descreve que os portugueses e espanhóis, depois de ferido mortalmente, queimaram o corpo de Sepé Tiaraju, com pólvora, mesmo que estivesse respirando e o martirizaram de outras maneiras. Enterraram (com os sagrados cânticos e hinos que usavam nas igrejas, porém sem sacerdote) o corpo do Capitão, em uma vizinha selva, havendo buscado de noite os seus com grande dor, a medida do amor que tinham por ele.

Este mesmo Jesuíta conta os fatos que ocorreram 3 dias depois, que é o da morte de 1500 missioneiros entre caciques e principais guerreiros daquele período na batalha de Caiboaté, onde os nativos foram enganados pelas tropas europeias (quebra de palavra), pois estava acertado que não sairia luta naquele dia, mas somente 3 dias após – iriam buscar os padres. Quando os índios se desarmaram e soltaram seus cavalos – foram pavorosamente atacados. No final daquele dia cravaram lanças em todos que estavam sobre terreno, pois se ainda estivesse vivos não era para nenhum sobreviver.

É um tempo de recontar nossas histórias e tomarmos consciência de todos os acontecimentos que nos envolvem como povo, genética e espiritualidade. No dia 7 de fevereiro de 2019 a comunidade miguelina organizou 3 eventos para homenagear a data: palestra com o pesquisador José Roberto de Oliveira – “Sepé Tiaraju no tempo de nosso esplendor”. Às 19h30 – Missa Solene na Paróquia São Miguel Arcanjo e às 20h30 – Caminhada Religiosa desde a Paróquia até o Sítio Histórico Patrimônio Mundial.

José Roberto de Oliveira
55.9.9638.6360