A solicitude pelos doentes

O dia 11 de fevereiro, memória da aparição da Virgem Maria em Lourdes, na França, em 1858, é celebrado como o Dia Mundial do Doente. O cuidado com os doentes tem caracterizado sempre a missão da Igreja, concretizando-se de tantas maneiras. Os evangelhos narram com detalhes a aproximação misericordiosa de Jesus Cristo com os doentes. Ele nunca ficou indiferente diante de um doente, que podia ser com uma enfermidade física, psíquica ou espiritual.

Hoje, a precariedade do sistema de saúde pública no Brasil, clama por uma atenção diferente. Quantas vezes os doentes são vistos como um peso para a sociedade e, com frequência, são descartados e escondidos. O amor e o cuidado pelos doentes e sofredores, que não entram na lógica do mérito, é um indicativo da maturidade de uma família e, sobretudo, de uma nação. Contudo, não faltam testemunhos de pessoas movidas pela caridade e pelo amor, que dedicam longos anos de sua vida no cuidado pelos familiares idosos. Como podem ser um estorvo aqueles que nos geraram e educaram? O Papa nos diz que “o cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é ‘querido’”. (Mensagem para o XXVII Dia Mundial do Doente).

Neste sentido, o ponto central da mensagem do Santo Padre é a promoção da “cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte”. O foco das instituições sanitárias deve ser sempre a pessoa e seu cuidado e não o lucro, diz Francisco. “A dimensão da gratuidade deve animar sobretudo as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo. As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas”. Quantas consagradas se santificaram no cuidado com os doentes nos hospitais e asilos. E, ainda hoje, são muitas. Recordo de maneira especial nossos presbíteros e Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística, que visitam os doentes para os confortar, levar Palavra e a Eucaristia. É um serviço gratuito, movido pela caridade e a misericórdia, pois, pela fé, conseguem ver no doente o rosto de Cristo sofredor, que pede acolhida e compreensão. Como não recordar Santa Teresa da Calcutá, que “inclinou-se sobre as pessoas indefesas”: “A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres” (Francisco, 04/09/2016).

Duas condições básicas podem nos encorajar neste cuidado pelos doentes. A primeira é a certeza de nossa condição pobre, necessitada e indigente. Temos necessidade uns dos outros toda a vida. Permanecemos sempre como “criaturas” e isto nos faz ser humildes e viver a solidariedade. Tudo o que somos, inclusive nossa vida, é dom: “o que tens tu que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7). A segunda é uma conversão necessária para nunca amar somente a quem o merece. O amor gratuito deve ser independente de classes e condições econômicas: “Se amais somente a quem vos ama, que recompensa tereis?” (Mt 5,46).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta