O ritmo do cotidiano

O cotidiano merece ser vivido de maneira positiva. Quando já se passaram as festividades natalinas e, para muitas pessoas, também o tempo de descanso, voltamos à normalidade da vida familiar e profissional. A simplicidade e a repetição das atividades são o lugar privilegiado para criarmos processos, vivermos nosso projeto de vida, realizarmos um caminho de crescimento humano, cristão e profissional. Normalmente a maturidade e a felicidade são resultados de uma fidelidade provada pelos anos, diante dos desafios e alegrias de cada dia.

A própria Sagrada Escritura, que fala muito pouco da vida de Jesus dos 12 aos 30 anos, apenas diz que viveu com Maria e José, em Nazaré, onde era obediente e crescia em estatura e graça (cf. Lc 2,52). A análise das parábolas de Jesus e o uso de comparações que ele fez nos dizem que ele mergulhou no cotidiano de uma vida simples, escondida, numa aldeia insignificante e que aí moldou seu jeito de ser, com os valores e atitudes básicas que demonstrou na sua pregação do Reino de Deus. Nossa vivência da fé tem seu primeiro lugar, o mais importante, no cotidiano. Como o profeta Isaías, dizemos: “A cada manhã, o Senhor desperta o meu ouvido para que eu o escute como um discípulo” (Is 50,4). A vivência e transmissão da fé, que se dá em primeiro lugar no testemunho de vida familiar, é feita pela perseverança na escuta cotidiana da Palavra. Ela é o “bom-dia de Deus”, que se prolonga nos momentos de oração, no obrigado pela sua presença permanente. Toda educação é feita pela repetição, mesmo que às vezes se torna cansativo e até desagradável. A educação da fé, inclusive, é a repetição de ritos cotidianos, que deixam marcas para toda a vida. Os momentos extraordinários, os grandes eventos, terão especial significado quando estão ligados a um estilo de vida que os prepara e, a partir deles, voltam à vida diária. Quantos de nós lembramos com gratidão o que aprendemos desde a infância!

Recordava-nos, recentemente, nosso Papa Francisco em sua Carta Gaudete et Exultate, que o cotidiano é o lugar privilegiado de viver a santidade de vida. Como ele falou: uma santidade “ao pé da porta” (cf. n. 6s), marcada pela simplicidade e profundidade, não pela extraordinariedade. Que fez de extraordinário Santa Terezinha do Menino Jesus? Que faz de extraordinário um casal que constrói sua família numa convivência de 50 anos, com amor sempre renovado? A lógica do consumismo nos acostuma à constante novidade e, por isso, à dificuldade de saborear a fundo o que é cotidiano, o que é simples, como o convívio familiar. Sempre se precisa de algo novo, diferente. A educação para a sobriedade favorece a espiritualidade, o desapego e traz mais paz e felicidade. Neste sentido, o cotidiano também está ligado ao lar, cujo sinônimo existencial é a intimidade familiar e pessoal. É o lugar que permite que sejamos nós mesmos e recolhamos tudo o que se dispersou pelas múltiplas atividades. Neste lugar sagrado somos compreendidos e acolhidos, pois ninguém quer nos vender ou comprar mercadorias. O olhar amoroso dos pais produz nos filhos a segurança e a bondade, que forjam uma personalidade sadia. Aprendemos também a disciplina da “língua”, do tom de voz, do respeito no falar. Certamente também faz parte do cotidiano aprender a tolerar, a compreender as fraquezas de quem convive conosco. Inútil querer exigir do marido, esposa, pais ou filhos a perfeição. Estamos todos a caminho.

Enfim, é no ritmo da vida diária, com a paciência da espera do tempo de maturação, que nos formamos para a maturidade humana, profissional, familiar e cristã. Como diz o ditado latino: “Carpe diem” (Horácio – 65-8 AC), aproveite o dia.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta