PASSO FUNDO – Panorama da gravidez na adolescência indica aumento nos casos

Criação de uma semana nacional para debater a pauta atenta para a diminuição dos índices de adolescentes grávidas

Felizmente, a história de Gabriela Piccini Montenegro, 16 anos, moradora do bairro Operária, em Passo Fundo, terminou diferente do que começou.

Logo após chegar na idade, no ano passado, a menina foi surpreendida com uma gravidez inesperada, ainda com 15 anos. O pai da criança também era novo, com apenas 16 anos. Mas o que chegou de susto, demorou poucos dias para se tornar felicidade.

E com toda essa mudança, a vida de Gabriela se transformou.
“No começo foi um susto, mas depois ficamos muito felizes”, afirma.
Mãe de primeira viagem, ela conta que se desafiou para encarar os primeiros desafios com a filha. Durante o período de gravidez, ela ensaiou como seriam os primeiros dias na prática.
“Foi difícil no começo, com bastantes desafios. Mas agora já estou pegando o jeito. Estava me preparando no período de gestação”, declara.
A história da adolescente reflete as estatísticas do levantamento mais recente do Ministério da Saúde, fechado em 2017, sobre a pauta. O documento informa que, somente em 2015, foram 546.529 os nascidos vivos de mães com idade entre 10 e 19 anos.
A taxa apresentou, em 11 anos, queda de 17% no Brasil, conforme a base do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), já que, em 2004, foram registrados 661.290 nascimentos.
Naquele ano, o número de crianças nascidas de mães adolescentes nessa faixa etária representou 18% dos 3 milhões de nascidos vivos no país.
Com o intuito de fornecer maior assistência às jovens e gestantes, a partir de 2019, a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência passa a ter data definida.
A medida foi uma das primeiras ações do presidente da República, Jair Bolsonaro, que sancionou o projeto de lei que institui e determina que a programação deve ser realizada anualmente na semana que incluir o dia 1º de fevereiro, com o objetivo de disseminar informações sobre medidas preventivas e educativas que contribuam para a redução da incidência da gravidez na adolescência.
“Agora, é tudo para ela”
Mãe há 42 dias, Gabriela manteve os estudos até os cinco primeiros meses de gestação. Esse foi o período limite em que conseguiu suportar as dores, enjoos e incômodos em sala de aula. A jovem, que completa a oitava série do ensino fundamental, tem planos para retornar aos estudos ainda em 2019.
“Estudei até quando consegui. Mas parei. Quero voltar neste ano”, completa.
As mudanças na vida de Gabriela, no entanto, foram eminentes. Se antes ela pensava apenas nela e também no namorado, hoje sua rotina se voltou para a Valentine. E nessa questão, estão incluídas questões que passam das emocionais, familiares até as financeiras.

“Apenas da gravidez não ter sido planejada, estamos bem felizes. Estou alegre, feliz com o que aconteceu. É claro que envolve muita coisa. Agora é tudo diferente. Tenho que pensar mais nela do que em mim. É fralda, roupa, alimento, essas coisas. Me preocupo bem mais do que antes. Agora é tudo para ela. Não é apenas eu”, completa.

A presença da filha, contudo, envolve o cuidado de toda a família. De acordo com a jovem, todos da família se mostram dedicados com a recém nascida.

“Em casa, recebo ajuda da minha mãe, do meu marido, da minha sogra. De todo mundo. Não fico apenas eu envolvida. Não encaramos como um problema essa gravidez em razão da idade, mas com muita felicidade”, conclui Gabriela.

Casos de mães adolescentes crescem 15% em Passo Fundo
Em Passo Fundo, houve crescimento de 15,1% de gestantes adolescentes cadastradas no Município em um ano. O dado estipula as mães que foram atendidas pela Secretaria de Atenção à Saúde da Mulher.

Em 2018, foram 373 mães abaixo dos 18 anos de idade no município, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O montante superou a temporada de 2017, a qual apresentou 324 mães adolescentes cadastradas. Essas mães englobam a faixa etária dos 10 aos 19 anos.

Segundo os relatórios do Ministério da Saúde, o município registrou sete mães com idade entre 10 e 14 anos e outras 366 com idade entre 15 e 19 anos. O número de mães com idade menor diminuiu em relação a 2017, quando foram registradas oito mães entre 10 e 14 anos de idade. Entre 15 e 19, foram 316 mães cadastradas.

O Centro de Referência da Saúde da Mulher e População LGBTI, que atende pacientes encaminhadas pelo atendimento primário, reduziu o número de mães encaminhadas ao serviço de alto risco de 2017 para 2018. Enquanto no primeiro ano foram 106 pacientes, na temporada passada houve redução para 101 pacientes.

Um olhar profissional
Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência se caracteriza como o período da vida que começa aos 10 anos e termina aos 19 anos completos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera a adolescência, a faixa etária dos 12 até os 18 anos de idade completos, sendo referência, desde 1990, para criação de leis e programas que asseguram os direitos desta população.

A ginecologista Valéria Winkaler Jeremias elenca que a gravidez, neste período da vida das meninas, pode estar associada a experiência anteriores dentro da própria família.
“Na grande maioria dos casos, a mãe da adolescente também passou pela mesma situação de engravidar nesta faixa etária. Temos também o despreparo quanto a orientações às meninas na escola, em casa e também, a principal dela, a falta do uso de preservativos e de métodos anticoncepcionais eficazes e seguros”.

A especialista ainda alerta sobre a precocidade no relógio biológico das crianças e adolescentes quanto a possibilidade de engravidar.

“A partir do momento em que a menina tem a menarca, que é a primeira menstruação, ela já tá propícia a engravidar se ela vir a ter uma relação sexual desprotegida. Temos casos de meninas crianças que menstruam já a partir dos 9 anos de idade, mas a média é a partir dos 11 anos. Nessa faixa etária, elas estão no ensino fundamental, por volta do 6º ano, e é aí que precisa ocorrer a educação sexual para que a informação ajuda a diminuir o índice de adolescentes grávidas”, ressalta.

Dúvida, medos, insegurança. No consultório, Valéria revela uma série de fatores que acompanham as jovens mães neste processo, nem sempre fácil de ser administrado pelas jovens.

“Quando ocorre, a principal preocupação delas, em geral, é a aceitação da família e o medo do parto. Elas trazem toda a preocupação em relação ao futuro, aos estudos. Na maioria das vezes, conseguimos realizar um acompanhamento na escola nas fases finais da gravidez quanto a amamentação, algumas escolas liberam a mãe também para amamentar o bebê, depende de cada escola”, explica.

Riscos para a mãe e o bebê
Engravidar na adolescência, segundo Valéria, é um risco dobrado. Além da mãe, a criança pode sofrer uma série de complicações em virtude da precocidade da gestação.

“Os principais riscos de uma gravidez precoce estão relacionados à má formação do bebê, elevação do risco para a incidência de diabetes, hipertensão e anemia. A mãe também está sujeita a questões emocionais, como o psicológico abalado, por conta do preconceito, de não conseguir estudar e a não aceitação dos pais da menina estar grávida. Quando a gestante necessita de acompanhamento psicológico, ele deve ser feito de algum responsável pela adolescente. Geralmente são avós, tias, madrinhas, dificilmente alguma mãe vai junto”, lista a ginecologista.

Dizer que a prevenção é a melhor forma de evitar a experiência de engravidar na adolescência pode parecer clichê, mas, ainda assim, permanece eficaz quando o assunto é orientação. Além disso, quando a gravidez ocorre, a atenção multidisciplinar pode tornar os nove meses seguintes menos complicados.

“Na rede privada nós encaminhamos direto para alguma profissional do convênio ou da preferência da paciente. Na rede pública, esse encaminhamento é feito por meio da secretaria da saúde e demora um pouco mais. Não teria melhor orientação do que o uso do preservativo em todas as relações sexuais. Isso é o mais importante. E é claro, diálogo com a família, falar sobre isso com os pais, criar essa ligação para evitar surpresas”, reforça Valéria.

Foto: Matheus Moraes | Diário da Manhã