Síntese, gratidão e esperança

Síntese, gratidão e esperança são palavras que marcam o fim de ano. O tempo, com sua contagem cronológica, com suas estações na natureza, com seu ritmo litúrgico na vida de fé ou com suas vivências pessoais significativas sempre é uma característica humana. O tempo é humano. Somos nós que oferecemos a ele a importância, a intensidade, o significado ou não. Ele pode ser somente o suceder de dias ou um kairós, um tempo oportuno, um momento pleno da graça de Deus.

Fim de ano é tempo de síntese. Humanamente, o tempo vivido, foi a oportunidade que Deus proporcionou para construirmos história, pessoal, familiar e social. Quando se conclui um período, um ano, costumamos fazer o exercício da síntese. A memória viva dos fatos, das pessoas, do que fizemos ou deixamos de fazer deixaram marcas em nós. Construímos relações, que podem ter sido de fraternidade, acolhida e respeito. Ou talvez, não. A capacidade de fazer síntese nos permite tomar a vida nas mãos, reconhecer os erros, decidir-se a perdoar e alegrar-se com o bem vivido. O momento da síntese, da avaliação, é propício para unificar a existência, recolhendo os fragmentos que tenham fugido de nosso projeto de vida. É, também, a oportunidade para firmar convicções e projetar. O que permaneceu de bom? Lembremos, só a amor permanece, tudo o mais passa (cf. 1Cor 13,1-13).

Fim de ano é tempo de gratidão. Para um cristão, o tempo é permeado pela presença iluminadora de Cristo, luz do mundo. Tudo tem a ver com Ele, pois, como nos disse Paulo: “Nele nos movemos, existimos e somos” (At 17,28). A presença de Deus, que perpassa todos os momentos, atinge o modo como vemos e inserimos as pessoas em nossas vidas. A gratidão vai a Deus em primeiro lugar, mas ela inclui e deve se expressar nas pessoas com as quais vivemos, atuamos, trabalhamos. A gratidão renova a certeza de nossa contingência. Em tudo o que somos, dependemos de outros: de Deus, a nossa vida; de nossos familiares, a acolhida, o cuidado e a educação; dos que convivem e atuam conosco, a construção de projetos comuns. Na sociedade humana, a teia que nos liga, faz com que cada ação, cada projeto tem a ver com toda a humanidade. É tempo de dizer, muito obrigado. Não custa sermos gratos.

Fim de ano é tempo de esperança. Não obstante as dores e dificuldades vividas, a passagem da página do ano permite que continuemos a sonhar, a esperar. Ainda vivendo o tempo do Natal, fomos recordados que caminhamos sempre na companhia do Emanuel, o Deus Conosco. A fé cristã nos faz olhar para o futuro. Ela é marcada pela promessa de Deus que é fiel (cf. 1Cor 1,9). O mundo e a história estão nas mãos de Deus. Nossa segurança é a confiança em Deus. “Verdadeiramente, mil anos aos teus olhos, são como o dia de ontem, que já passou, e como as poucas horas das primeiras vigílias da noite” (Sl 90,4).

Memória agradecida pelo ano passado. Esperança renovada para o ano 2019. Na fé, dizemos, “tudo é graça” (Santa Terezinha).

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta