Natal: presença permanente de Deus

A alegria do Natal tem um motivo: ao nascer da Virgem Maria, Deus se fez homem, uniu-se com toda a humanidade e está permanentemente conosco. “Hoje nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). As celebrações natalinas tem esta finalidade pedagógica de nos recordar novamente o que já sabemos, que Deus, em Cristo, é presença constante. Ele veio, Ele vem, Ele virá. Nossa religião está fundada exatamente na Encarnação do Filho de Deus, que se fez um de nós, sem deixar de ser Deus. “O cristianismo não é apenas uma doutrina ou um sistema de crenças; é Cristo vivendo em nós e unindo os homens uns aos outros em sua própria vida e unidade” (Thomas Merton, Sementes de Contemplação, p.81). O mistério do Natal, neste sentido, se completa no mistério da Páscoa, quando o grande anúncio é sua vitória sobre a morte e sua habitação entre nós, nos caminhos de nossa vida e história: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Porém, a questão é saber acolher esta presença e reconhecer nele o Salvador que nos foi dado. “Não havida lugar para eles” (Lc 2,7), diz o evangelista quando relata a procura de um lugar para o menino nascer em Belém. Haverá lugar e possibilidade de diálogo com o Menino que está em nós? De um lado temos um modo de viver que prefere partir de si mesmo, colocando-se no centro, totalmente apegado a si, ao seu mundo de conquistas, progresso, sucesso e prazer. Ainda necessita de um Salvador este homem de hoje? Mas pode haver outros empecilhos que também se apresentam, como a redução da religião a ritos exteriores, apegados a símbolos, mas que não chegam a “aquecer o coração”, a criar uma relação de comunhão com Deus que nos habita e, nele, com os irmãos. Todos os símbolos natalinos são importantes, as celebrações natalinas mais ainda, mas devem ser um meio para facilitar a consciência da presença amorosa de Deus em nossa vida e no mundo. Acolher é sinônimo de dar espaço, criar comunhão, dialogar, dar importância, permitir que Ele ocupe o seu lugar. Onde não acontece esta “conexão”, com facilidade, o Natal pode se transformar num feriado, num momento vazio e até triste, fonte de solidão, até nos poucos lugares onde a ceia de Natal é farta. “Não pode haver tristeza quando nasce a vida: dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nessa felicidade.” (São Leão Magno).

Cultivar a capacidade do recolhimento interior, não perder-se no barulho que distrai, aprender a valorizar os pequenos sinais da manifestação de Deus no cotidiano, podem nos ajudar. Isto porque sua presença sempre é discreta, humilde, quase imperceptível: “Este é o sinal: encontrareis um menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12). Só os humildes compreendem esta linguagem do amor de Deus.

Contudo, o Natal e nossa fé não são uma realidade meramente intimista, que se dá somente no coração humano. O Papa Francisco nos disse: “Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de descobrir algo novo sobre Deus. Cada vez que os nossos olhos se abrem para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para reconhecer a Deus” (EG 272). O caminho da solidariedade humana e da paz são consequência de nossa comunhão em Cristo, que reconhecemos em cada rosto humano, sem distinções. Feliz e Abençoado Natal!

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta