Um humanismo integral e solidário

A fé cristã professa que “Jesus veio trazer a salvação integral, que abrange todo e todos os homens, abrindo-lhes os horizontes admiráveis da filiação divina” (São João Paulo II, Redemptoris Missio, 11). Por isso, a religião não deve ficar restrita ao âmbito privado e unicamente ocupar-se com o estritamente espiritual. A adesão a Jesus Cristo e seu projeto do Reino abre um horizonte de compreensão do ser humano, da família, da criação e da sociedade humana, compendiado na chamada Doutrina Social da Igreja. Esta visão de mundo não assume este ou aquele sistema social, econômico ou político, mas são princípios que decorrem de nossa fé. “Quer propor a todos os homens um humanismo à altura do desígnio de amor de Deus sobre a história, um humanismo integral e solidário, capaz de animar uma nova ordem social humana, a se realizar na paz, na justiça e na solidariedade” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n.18).

Os pronunciamentos dos papas, desde Leão XIII, em 1891, com a Encíclica Rerum Novarum, até o Papa Francisco, com a Encíclica Laudato Sì, em 2015, oferecem aos cristãos princípios de reflexão, critérios de julgamento e diretrizes de ação para a construção da civilização do amor. Na base de todo o ensinamento social está uma visão de ser humano, uma antropologia: é o princípio da dignidade da pessoa humana. Criatura de Deus, portadora de sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27), deve a Ele a sua existência e só se compreende na relação com Ele. Ao mesmo tempo, tem sua identidade na relação com os outros e com o meio ambiente onde vive. Amada pessoalmente por Deus, a pessoa é única, sua vida é um dom sagrado e inviolável. Mesmo marcada pela fragilidade e pelo pecado, sua dignidade deve ser sempre respeitada. Nunca pode ser instrumentalizada em vista de projetos econômicos ou pelas leis do mercado. Esta sacralidade marca toda a vida, desde a concepção, passa pelas relações familiares e sociais, continuando até o seu fim natural. Por isso, “a ordem social e o seu progresso devem ordenar-se incessantemente ao bem das pessoas” (Gaudium et Spes, n. 26).

Uma sociedade só poderá ser justa se respeitar e promover a dignidade da pessoa humana, de todas as pessoas, sua liberdade de expressão e liberdade religiosa, a defesa incondicional da vida e o combate aos preconceitos. A partir deste princípio temos luz para nos empenharmos numa ordem social pela superação da pobreza, da fome e da violência, que atentam contra a dignidade da pessoa humana.

Deste princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, decorrem todos os outros temas que perpassam os principais pronunciamentos sociais do magistério. Elenco alguns destes temas: a) A destinação universal dos bens, pois “Deus deu a terra a todo o gênero humano, para que ele sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém” (São João Paulo II, Centesimus Annus, n. 31); b) O direito de propriedade e sua função social; c) O princípio da solidariedade, que Papa Francisco chama de “globalização da solidariedade”; d) A opção preferencial pelos pobres e sua inclusão social, que “deriva de nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados” (Francisco, Evangelii Gaudium, n. 186); e) O primado do trabalho sobre o capital, com salário justo (cf. Centesimus Annus, n. 8); f) A promoção do matrimônio e da família; f) O diálogo social como contribuição para a paz, através da cultura do encontro (cf. Evangelii Gaudium, n. 238s); g) Promoção de uma ecologia integral (cf. Francisco, Laudato Sì, n. 137s).

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta