Educar para a tolerância

Larguemos as pedras que temos nas mãos. A cena bíblica da mulher adúltera (Jo 8, 1-11), que encontra acolhida e misericórdia em Jesus Cristo, pode nos ajudar a compreender a necessidade da tolerância. Aqueles homens raivosos, com pedras prontas para atingir a mulher, ao serem colocados por Jesus diante de suas consciências, tornaram-se humildes e tolerantes. As pedras caem de suas mãos. Como eles, compreendemos que não temos direito, não podemos, não nos é permitido universalizar nossas convicções e querer destruir com violência o outro. A intolerância está presente em todas as classes sociais e ideologias. Exatamente no ano em que refletimos o caminho da “superação da violência” (CF 2018), vemos crescer o alerta lançado pela 56º Assembleia da CNBB, deste ano: “Os discursos e atos de intolerância, de ódio e de violência, tanto nas redes sociais como em manifestações públicas, revelam uma polarização e uma radicalização que produzem posturas antidemocráticas, fechadas a toda possibilidade de diálogo e conciliação” (Eleições 2018: compromisso e esperança).

As relações humanas são, a princípio, conflituosas, pois haverá sempre uma divergência entre nossa visão de mundo e a dos outros. Porém, o desejo de se sobrepor ao outro marcou a humanidade deste o princípio, com o fratricídio de Caim e Abel (cf. Gn 4). Podemos escolher olhar o “outro” como o inferno (Sartre) ou acolher o “rosto do outro” como princípio da alteridade e apelo ético ao respeito à sacralidade da vida (Emmanuel Lévinas). Na antropologia cristã, o outro é sempre um irmão ou irmã em Cristo. Como criatura de Deus, traz consigo a dignidade de ser imagem de Deus. É uma pessoa. Portanto, uma atitude fundamental é a acolhida e o respeito para construirmos juntos “a civilização do amor”.

Nosso Papa Francisco nos ensina que o desejo de construção da comunhão não significa a uniformidade, com o supressão dos conflitos, mas “um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida” (EG 228). A tolerância também não significa um sincretismo, com a perca da identidade e dos valores, onde tudo é relativo, mas o reconhecimento que o outro tem valores que talvez não compartilho, mas para ele são importantes. Uma pergunta que podemos nos fazer, diante de outra teoria, de outra religião, de outra ideologia ou de outra antropologia: por que estes valores são significativos para eles?

O diálogo sereno, o respeito e a tolerância precisam ser cultivados. A educação familiar precisa ser clara e ajudar na formação da identidade, porém, nunca intolerante ou agressiva com quem pensa e vive diferente. A educação atingirá sempre o coração, pois o próprio Jesus disse que “é do interior, é do coração do homem que saem as más intenções, desregramentos, furtos, homicídios, adultérios, cupidez, perversidades, astúcias, inveja, injúrias, vaidade, insensatez” (Mc 7,20-22). Ele próprio se apresenta como modelo de mansidão: “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Com corações pacificados e reconciliados é possível o diálogo sempre. A violência, que pode se manifestar de tantas formas, nunca será um caminho para uma humanidade feliz, ela precisa ser superada. Mais uma vez recordo as palavras de Francisco, que insiste numa “cultura do encontro”: “A diversidade é bela, quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação até selar uma espécie de pacto cultural que faça surgir uma diversidade reconciliada” (EG 230). Abandonemos os caminhos da intolerância, larguemos as pedras que temos nas mãos.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta