A paternidade espiritual

Qual o padre que marcou sua vida? Com certeza todos nós recordamos com gratidão de um ou mais padres que estiveram presentes em nosso caminho de fé e nos momentos mais alegres ou, também, nas dificuldades e provações de nossas vidas. Neste primeiro domingo de agosto, pela proximidade da memória de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes, celebramos o dia dos padres. Somos convidados a realizar uma memória agradecida pela presença e testemunho de santidade de tantos presbíteros, que fizeram frutificar a unção que os consagrou para “exalar o bom perfume de Cristo” (2Cor 2,15) em nossa Diocese. Mas, principalmente, reconhecemos, a bela e insubstituível missão do padre da paróquia à qual pertencemos.

A palavra mais usual para designar o ministério presbiteral é “padre”, que, literalmente significa “pai”. O padre é o pai espiritual de uma comunidade. Temos o exemplo de São Paulo, que era muito zeloso pelas comunidades que havia fundado: “Embora possam ter dez mil pedagogos em Cristo, vocês não têm muitos pais, pois em Cristo Jesus eu mesmo os gerei por meio do evangelho (1Cor 4,15). A paternidade é fruto do anúncio do Evangelho, que suscita a fé em Jesus Cristo e o batismo que os torna filhos de Deus, na Igreja. Noutra passagem diz: “Meus filhos, sofro novamente como dores de parto, até que Cristo esteja formado em vocês” (Gl 4,19). As palavras que Paulo dirige à comunidade são de um pai para seus filhos, com linguagem materna, com exortações cheias de preocupação e desejo de ajudar. A missão de um padre é gerativa e formativa. Hoje, dizemos que é a Igreja que deve anunciar o Evangelho e ajudar os batizados a amadurecerem sua fé no caminho de seguimento de Cristo. Não basta somente batizar, é preciso acompanhar o processo “até que Cristo seja formado em vocês” (Gl 4,19), que tenham “os sentimentos” e “a forma” de Cristo (cf. Fl 2,5). Esta imagem de Paulo ajuda a compreender que o padre não é um funcionário da paróquia, mas vive o seu ministério como paternidade espiritual. O apostolado é, por isso, transmissão de vida, que comporta acompanhamento, cuidado, doação, presença, educação e, também, sofrimento. A dor do apóstolo é comparável à dor do parto. É dor contínua, porque ainda estão se formando. A paternidade do padre visa conduzir a Cristo, para alcançar a forma de Cristo.

Não é somente naquilo que o padre faz que manifesta sua paternidade, mas no que ele é, no dom de si mesmo por amor ao seu rebanho. Ele torna presente para a comunidade o Cristo Esposo, Cabeça e Pastor da Igreja. É pastor, esposo e servo da Igreja. Como pais, os padres são reflexo da paternidade divina e, portanto, traduzem o amor criador e misericordioso de Deus Pai. Deve ser o “cuidador” do seu povo. No dizer do Papa Francisco, o evangelizador é chamado à “alegria de ser povo”, estar próximo e caminhar junto. Em sua oração recolhe toda a comunidade à qual serve, como Paulo: “Em todas as minhas orações, sempre peço como alegria por todos vós [...] pois tenho-vos no coração” (Fl 1,4.7).

A paternidade do presbítero é fruto de sua vida celibatária, como dom de si com Cristo à sua Igreja, de forma total, com um coração indiviso. “O coração do sacerdote, a fim de estar disponível para tal serviço, para tal solicitude e amor, tem de ser livre” (São João Paulo II, 1979). Sem as preocupações com esposa e filhos, com sustento de uma família e outras obrigações de ordem matrimonial, o presbítero tem o coração livre para servir. Toda sua agenda e suas ocupações estão ligadas à sua consagração na ordenação sacerdotal, pela qual Cristo o configurou a si, para ser “alter Christus”, isto é, no padre é Cristo que se faz presente no anúncio da Palavra, nos sinais sacramentais e no pastoreio da comunidade. Que bela e nobre a vida e missão do padre!

Somos convidados a uma recordação agradecida aos padres de nossa paróquia e Diocese. Digamos-lhes um muito obrigado. Não esqueçamos de rezar pela sua fidelidade e santificação. Parabéns a toda nossa família presbiteral da Diocese e a cada padre em particular.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta