A dignidade e sacralidade da pessoa humana

Uma grave crise antropológica está na raiz de muitos problemas que afligem o ser humano hoje. A afirmação do antropocentrismo, do ser humano como centro e medida última de toda a realidade, leva a um erro de compreensão de si mesmo, a um subjetivismo excludente, à relativização dos valores e à cultura do descarte a partir de seu ponto de vista, confundindo-o com a verdade. “Quando o ser humano se coloca no centro, acaba por dar prioridade absoluta aos seus interesses contingentes, e tudo o mais se torna relativo” (Papa Francisco, Laudato Sí, 122). As decorrências daí são muitas: a incapacidade de ter compaixão, o uso indiscriminado dos bens naturais em vista de um projeto de vida consumista e, o que é pior, a discriminação e o descarte de quem pensa ou vive de maneira diferente. Este estilo de vida é “um confinamento asfixiante na imanência” (Papa Francisco Laudato Sí, 119). Certo, pois eu sou o centro e o critério para julgar o certo e o errado. Sem peso de consciência, mata-se a criança no ventre materno ou a pessoa no final da vida; expulsa-se o “pobre Lázaro” que bate à porta, como migrante em busca de uma vida mais digna. Onde está o erro?

O ser humano nunca é o princípio e o fim em si mesmo. Existe em relação. Somos, temos nossa identidade, em relação. Compreendemos nossa identidade na relação com o outro, que revela quem somos, na relação com o mundo, que nos situa no tempo e no espaço, e, sobretudo com Deus, princípio e fim último de toda pessoa humana. Na antropologia cristã, dizemos que somos “pessoas”. Em cada um de nós está a imagem de Deus Trindade. Ninguém dá a si mesmo sua existência. Somos, antes mesmo de que soubéssemos, infinitamente amados por Deus. Ninguém vem ao mundo ou existe por acaso ou por um acidente ou erro. As circunstâncias históricas de como viemos à vida não são tão importantes, pois determinante é o fato que somos criaturas, que Deus nos criou e continuamente nos sustenta e guia. Na visão cristã não existe autossalvação, mas somos salvos, por pura graça, em Jesus Cristo. Somos plenamente humanos quando acolhemos esta visita permanente: Deus Criador e Redentor. Por isso, a pessoa humana é sempre digna, aquela que está no ventre materno, a mãe que gera e a vida que peregrina neste mundo, cheio de contradições. O salmista exclama cheio de contentamento ao se dar conta desta dignidade do ser humano: “”Senhor que é o homem para que dele se lembre; e o filho do homem para que o visites.” (Sl 8,4).

Importante recordar que também não somos mais um ser vivo junto com tantos outros, com a mesma importância e dignidade. Este biocentrismo tira da pessoa humana a sua especificidade, sua responsabilidade como colaborador na obra da criação e traz grande dificuldade para compreender a nobre missão do ser humano no mundo. A relação humana fundamental deve ser curada: a abertura e acolhida ao Deus de Amor! “A abertura a um ‘tu’ capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana” (Papa Francisco Laudato Si, 119).

Esta relação originária com Deus não somente fundamenta nossa existência, mas constitui nossa liberdade, a possibilidade de, mesmo que de maneira absurda, dizer não a Deus e, por conseguinte, a nós mesmos. Além disso, nos indica o fim, a meta do nosso caminhar: viemos de Deus, trazemos sua imagem, somos convidados a viver nos assemelhando cada vez mais ao amor trinitário e caminhamos para a vida eterna em Deus.

O desprezo ou descarte de uma vida humana, uma só que seja, diminui nossa humanidade, nos empobrece. Toda solidariedade e defesa incondicional da vida humana, independente de suas condições históricas, dignifica toda a humanidade. Unamo-nos na promoção da vida humana e na luta contra a “cultura da morte”.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta