A santidade no mundo atual

Buscar a santidade no mundo atual é um desafio para todo cristão. A partir da Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, do Papa Francisco, apresento cinco características de uma busca de santidade, como resposta aos desafios do nosso tempo. São elencados como desafios: “a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece; o negativismo e a tristeza; a acídia cômoda, consumista e egoísta; o individualismo e tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso atual” (GE 111).

Em primeiro lugar,é necessário manter-se centrado em Deus, esperar com paciência nele, que nos ama e nos sustenta em todas as circunstâncias. É uma firmeza interior capaz de suportar contrariedades e manter a paz. “Com base em tal solidez interior, o testemunho de santidade, no nosso mundo acelerado, volúvel e agressivo, é feito de paciência e constância no bem” (GE 112). Com um coração pacificado em Cristo, supera-se a agressividade, que se manifesta de tantas formas, até nas redes sociais.

A segunda característica é a alegria. O santo vive alegremente e com bom humor. Nunca é amargo ou tristonho. Carrega consigo, mesmo diante de cruzes, uma alegria sobrenatural, fruto da certeza de “sermos infinitamente amados” (GE 125). Não se trata aqui de alegria como sinônimo de uma euforia superficial, fruto do consumismo, mas algo mais profundo, que brota da fé.

O caminho da santidade, a terceira marca é a ousadia, que na bíblia é conhecida pela palavra parresia. Diante da tentação da acomodação, o Senhor nos pede para avançar mar adentro, para águas profundas (cf. Lc 5,4), a gastar a nossa vida ao seu serviço, indo às periferias existenciais e geográficas. Não nos acomodemos com a mediocridade.“Se ousarmos ir às periferias, lá O encontraremos: Ele já estará lá. Jesus antecipasse-nos no coração daquele irmão, na sua carne ferida, na sua vida oprimida, na sua alma sombria. Ele já está lá” (GE 135). Esta coragem tem sua âncora nas palavras de Jesus: “não temais” (Mc 6,50). “Os santos surpreendem, desinstalam, porque a sua vida nos chama a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora” (GE 138).

A quarta característica da santidade é o vínculo familiar e comunitário. Ninguém pode ser santo sozinho. A comunidade é o local dos pequenos detalhes cotidianos, que fazem toda diferença, como vemos na comunidade de Jesus com os discípulos. É o espaço da Palavra e da Eucaristia, do perdão e da acolhida, onde o Ressuscitado se manifesta.

Por fim, a oração constante é expressão de um caminho de santidade. “O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de se comunicar com Deus. É alguém que não suporta asfixiar-se na imanência fechada deste mundo e, no meio dos seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor” (GE 146). Não há santidade sem prolongados tempos de conversa, a sós, com Aquele que sabemos que nos ama (cf. Santa Teresa de Ávila). É indispensável “estar com o Mestre, escutá-Lo, aprender d´Ele, aprender sempre” (GE 150).

Em nossa experiência pessoal, podemos agregar tantas outras características da santidade, já consagradas pela tradição cristã. Estas apresentadas pelo Santo Padre não as substituem, mas devem ser acrescentadas às outras.

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta