Temporal deixa vítimas fatais, tomba caminhões e destrói casas na região

De acordo com moradores de Coxilha e Metsul, tornado foi a causa dos estragos no Norte do Rio Grande do Sul. Momento, agora, é de reconstruir o que foi perdido nas propriedades rurais

O temporal que atingiu a Região nessa terça-feira (12) deixou duas vítimas fatais, tombou três caminhões, destruiu aviários e destelhou residências no Norte do Rio Grande do Sul. Os dois óbitos ocorreram em Sarandi e Ciríaco, de pessoas que não conseguiram escapar após a destruição de residências em virtude dos ventos. Segundo a Metsul Meteorologia, foram vários tornados na Metade Norte. O mais grave resultou em ventos de até 300 km/h, os quais afetaram a região entre Coxilha e Tapejara.

Em Coxilha, no quilômetro 9 da ERS 463, três caminhões foram arrastados com a força dos ventos. Dois dos três caminhões que faziam o trajeto de Tapejara a Coxilha ficaram tombados na rodovia, enquanto um terceiro foi arremessado para a lavoura ao lado da pista. Segundo a Metsul, o tornado foi caracterizado na categoria de devastador, com grande diâmetro, ou seja, centenas de metros, e de mais longa duração pela força e a trilha de danos constatados.

Para quem vivenciou de perto o que aconteceu entre Coxilha e Tapejara, o sentimento é o mesmo: não foi apenas ventos, mas um tornado. É o que acredita o responsável por uma lavoura às margens da rodovia, Joceli José Piroli, de 56 anos. “Ouvimos um estouro, foi levantando tudo, vindo cada vez mais forte. Isso só pode ser um tornado, para levantar tudo isso. Levantou galpão, com vigas grandes, precisa ser algo muito forte”, declara.

Outro morador próximo de onde ocorreu o temporal é Mauri Bordignon, que reside na propriedade rural há 19 anos. Segundo ele, nunca viu algo parecido. “Espero nunca mais passar por isso. Foi algo que nunca vi. Vimos as estruturas de metal dos armazéns serem destruídas. Agora é esperar para ver o que dá para aproveitar”, afirma. Emocionado, ele declarou que, pelo o que se recorda, foram minutos que destruíram todo o trabalho de uma vida. “Em segundos tudo voou pelos ares. Terminou com casas, armazéns. Uma vida feita praticamente. Foram 50, 60 anos que terminaram em cinco minutos. Agora vamos começar tudo do zero”, lamenta.

A família de Lúcio Basegio também sofre com os prejuízos dos tornados em Coxilha. A unidade de grãos – que concentrava soja, trigo e feijão – foi totalmente destruída. Segundo ele, o momento é de remover as ferragens e aproveitar o que conseguir. “Nossa família e colaboradores foram todos prejudicados. Não temos como mensurar o prejuízo por enquanto. Pretendemos fazer a remoção e aproveitar soja, feijão. Procurar proteger o que fica e depois, com o passar do tempo, reconstruir”, lastima. Segundo ele, 15 pessoas trabalhavam na unidade.

Dois óbitos em Ciríaco e Sarandi
Os fortes ventos que atingiram a região entre domingo (10) e segunda-feira (11) deixaram duas pessoas mortas e afetaram 2.630 mil residências do Estado. Segundo levantamento da Defesa Civil, 24 municípios foram afetados com o temporal e 22 famílias ficaram desalojadas e outras 10 desabrigadas. De acordo com o coordenador da unidade da Defesa Civil da região, Vanius Ricardo Sanvido, a vítima estava dentro de casa quando a estrutura desabou sobre ela. “Houve um tufão na região e a casa desmanchou toda. Como a Defesa Civil e os Bombeiros não conseguiram chegar na localidade e nem o pessoal da localidade sair de lá, essas pessoas ficaram ilhadas e devido ao bastante tempo de espera, uma delas veio a óbito”, explicou Sanvido.

A vítima se chamava Rute Di Domenico e tinha 70 anos. Segundo a Polícia Civil de Sarandi, ela morava com um sobrinho e um sobrinho-neto na linha Águas do Anjico. Os dois sobreviveram pois se refugiaram dentro de um veículo gol, estacionado na garagem. O carro ficou parcialmente destruído. A idade dos parentes não foi informada pela polícia. Em todo o dia de ontem, cinco equipes da Defesa Civil seguiam com buscas na cidade e contabilizavam os estragos.

Sanvido estava desde às 19h de segunda-feira (11) trabalhando no levantamento. Além da morte, cinco feridos e 100 postes caídos foram registrados. “Houve uma destruição parcial do município”, lamentou. “Um tornado cruzou o município e trouxe vento forte, chuvas e pedras, causando o destelhamento”, completou. A cidade possui um plano de contingência para casos de desastres. Nele estão listados os bairros mais propícios a alagamentos e enxurradas. No município, outras duas pessoas ficaram presas em um carro após a casa ter desabado na mesma localidade onde ocorreu a morte. Elas foram resgatadas durante a manhã. A cidade já havia sido atingida na noite de segunda-feira, quando uma chuva de granizo danificou diversas casas nas vilas Santa Catarina, Vicentina, Esperança e Santa Gema.

A segunda vítima do temporal foi José de Arquiles, morador da área rural de Ciríaco. O homem faleceu após o vento ter derrubado a residência onde morava. A vítima foi levada ao Hospital São José, em David Canabarro, por familiares, mas também não resistiu aos ferimentos. Em Água Santa, a cerca de 50 quilômetros de Passo Fundo, as propriedades rurais foram as mais atingidas com o temporal. De acordo com a Defesa de Civil do município, 15 residências foram destruídas – a maioria totalmente e algumas parcialmente -, além da destruição de sete aviários, dos quais muitos apresentaram mortalidade de frangos. As regiões atingidas foram nas localidades de São Caetano, Santa Rita, Rincão do Campo e Engenho Grande. Além disso, quatro pessoas de uma família acabaram feridas com a destruição de uma residência, mas apenas uma acabou hospitalizada. Até o fechamento desta edição, ela estava em observação, mas não sofria risco de morte. “Sofremos com intensas chuvas e fortes ventos. No levantamento junto das propriedades, constatamos muitos danos. A gente começou a receber chamadas em torno das duas horas da manhã. Foi uma sequência de ventos no interior”, descreve o representante da Defesa Civil, Fernando Spagnol.

Em Passo Fundo, casas foram destelhadas e árvores caíram
Era por volta de 1h da madrugada quando Claudir Antunes se acordou. Assustado com os fortes ventos, não demorou muito para ele prever o pior. “Era um vento muito forte. Tinha a sensação que queria arrebentar tudo. E parecia que não terminaria se não arrebentasse”, declara. Pouco mais de uma hora depois, o vento se juntou a chuva. Foi o suficiente para o vento entrar em casa e destelhar tudo. “Foi muito rápido. O vento bateu e levantou tudo”, diz o morador do bairro Planaltina. Dos males o menor: a parte onde reside não foi afetada, mas sim a frente da casa, onde ele inicia uma construção, na Rua Jorge Barbieux. “Nunca tinha passado por isso. Moro aqui há algum tempo e foi a primeira vez que a casa destelhou”, lamenta.

Poucas quadras depois, a Rua Guananazes apresentou um dos piores cenários do bairro, com dezenas de famílias atingidas pelo temporal. Nas ruas, telhas atiradas pelo asfalto. No teto das residências, o clarão do céu. De uma casa para outra, o número de contato da Defesa Civil era repassado de mão em mão. No fim da manhã de terça-feira, amigos e vizinhos trabalhavam em conjunto para reerguer o que acabou destruído.

Na casa de Ana Lauter, o desespero bateu por volta das 2h. “Foi assustador. Perdi o sono e não voltamos mais a dormir. Destruiu o telhado, a água invadiu a casa. Foi terrível”, diz a moradora. Ainda assustada com o temporal, a moradora já havia coletado as telhas quebradas. Dentro de casa, poças de água eram localizadas com a chuva que permaneceu durante toda a madrugada. Junto de sua família, ela aguardava por doações de cobertores, visto que os dela já estavam todos molhados. “Não pedimos mais que isso, sabemos que tem pessoas que precisam mais”, disse a moradora, solidária aos casos mais extremos na região.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, foram pelo menos dez ocorrências de corte e remoção de árvores na região central da cidade. Além disso, a guarnição declarou que os bairros atingidos pelo temporal com destelhamento de casas foram na Planaltina, Boqueirão, São Luiz Gonzaga e Operária, além de localidades no interior da cidade.

A Defesa Civil do município prestou assistência para a população que sofreu com danos do temporal. Os principais estragos foram árvores caídas, problemas em fiações elétricas, semáforos parados, entupimentos de bocas de lobo e sujeiras nas vias. As pessoas que precisam de lonas para suas casas podem entrar em contato com o Corpo de Bombeiros pelo número 193. Também estão disponíveis os telefones (54) 3313-3768 e (54) 3313-7576. As lonas adquiridas pela Prefeitura estão sendo distribuídas pelo Corpo de Bombeiros. As pessoas que precisam de lonas para suas casas podem entrar em contato com o Corpo de Bombeiros pelo número 193 ou ir até o quartel, que fica na Rua Independência, 1320, entre as ruas Capitão Araújo e Marcelino Ramos.

Residência de Ana Lauter foi uma das atingidas no bairro Planaltina

Danos na região
Água Santa: Atingidos: 50 residências
Ciríaco: um óbito, 80 residências atingidas
Coxilha: Atingidos: 20 residências
Guaporé: Atingidos: seis residências
Marau: Atingidos: dez residências
Sarandi: um óbito, cinco feridos, 100 postes caídos
*Dados da Defesa Civil do RS

Outras cidades
Segundo o Corpo de Bombeiros de Carazinho, o município registrou destelhamentos pontuais e quedas de três árvores no perímetro urbano e na ERS 142 e na BR 285. Segundo o sargento Zineu José Muhl, cerca de 15 lonas foram distribuídas para a população, mas não houve desabrigados ou feridos. Outras ocorrências registradas devido às chuvas foi o entupimento de calhas e bueiros. A secretaria de Obras trabalhou na desobstrução das vias na manhã de ontem para evitar alagamentos.

Em Não-Me-Toque, a estimativa é de que 40 residências foram atingidas, sendo que a Defesa Civil distribuiu 40 metros de lonas. Também houve queda de árvores e danos em postes de luz, interrompendo a distribuição de energia elétrica. Integrantes do Corpo de Bombeiros Voluntários limparam a rodovia ERS-142, entre Não-Me-Toque e Carazinho, retirando galhos que obstruíam a pista.

As aulas nas Escolas de Ensino Fundamental (EMEF’s) Amália Kerber e Carlos Gomes tiveram as aulas suspensas devido à falta de energia elétrica e dificuldade para chegar à escola.

1,5 mil sem luz em Chapada e Carazinho
De acordo com as Centrais Elétricas de Carazinho (Eletrocar), ontem 1,5 mil pessoas ainda estavam sem energia. A maioria eram da cidade de Chapada, que somava 800 afetados. Os demais eram de comunidades rurais de Carazinho.

A interrupção do abastecimento, segundo o engenheiro Claudio Quadros, diretor técnico da Eletrocar, ocorreu devido aos curtos circuitos causados pela oscilação dos condutores e de galhos de árvores que atingiram algumas estruturas.

“Nós tivemos alguns pontos interrompidos não como domingo. Foram interrupções pontuais, mas nada como na noite anterior [domingo], quando mais de 12 mil pessoas ficaram sem energia”, frisou. A expectativa era de que até às 20h de ontem o sistema fosse completamente reestabelecido.

22 mil clientes da RGE seguem desabastecidos
De acordo com a Rio Grande Energia (RGE), houve registro de fortes ventos, que chegaram a formar tornados e que provocaram a queda de postes e galhos de árvores sobre os cabos da rede de energia elétrica na região do Planalto Médio e Missões. Também a grande quantidade de descargas atmosféricas danificou equipamentos do sistema de distribuição, como transformadores, alimentadores e cabos de energia. A distribuidora atua com 180 equipes neste momento, em toda a região, para restabelecer o mais rápido possível os 22 mil clientes que ainda estão desabastecidos. As cidades mais afetadas são Passo Fundo, Coxilha, Sarandi, Rondinha, Ronda Alta, Constantina, Liberato Salzano, Sagrada Família, Palmeira das Missões, Sertão e Tapejara. A RGE ressalta que a rede, uma vez recomposta, precisa ser totalmente inspecionada para depois ser religada. Isso garante a segurança dos clientes e também das equipes, que continuam totalmente mobilizadas na execução da recomposição das redes afetadas.

A distribuidora alerta para que ninguém toque em fios caídos ou quaisquer outros equipamentos elétricos. Não é possível saber se estão ou não energizados e o risco de acidente, inclusive fatal, é alto. Para qualquer necessidade com a rede elétrica, chame a RGE pelos seguintes contatos: RGE – 0800 970 0900- SMS com a palavra LUZ + Código de Cliente para 27350 (se nunca usou o serviço, mandar antes IN + Código de Cliente para o mesmo número para cadastro).

Projeto PARE arrecada doações
O projeto Amar Repartir Esperança, de Passo Fundo, arrecada alimentos, água mineral, roupas e cobertores para a cidade de Ciríaco, atingida com o temporal. Os contatos para doações são pelo telefone 54-99612-7660, com Jonas, 54-99239-6161, Natanael, e 54 99110-3258, com João. As doações serão prestadas em contas com notas dos gastos.

Diário da Manhã