A grande semana

O Domingo de Ramos abre a “grande semana”, a Semana Santa. Neste dia, os católicos celebram a entrada triunfal de Jesus Cristo, em Jerusalém, antes de sofrer a Paixão, a Morte e a Ressurreição. A Igreja nos convida a que “sigamos os passos de nosso salvador para que associados pela graça à sua cruz, participemos também de sua ressurreição” (Exortação inicial da missa do Domingo da Paixão). A oração do dia é ainda mais clara no sentido desta celebração do Domingo da Paixão e de toda a Semana Santa: “Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar com ele em sua glória”. Os católicos são convidados a reviver, com piedade, os últimos acontecimentos da vida de Jesus Cristo. Na Semana Santa se condensam toda a vida e o ensinamento de Jesus Cristo. Fica visível, mais uma vez, o que é capaz de fazer o ser humano, ferido pelo pecado. Porém, ao revelar o mistério da iniquidade, o Crucificado-Ressuscitado abre as portas da misericórdia, do perdão e da reconciliação, que o Pai nos oferece no seu Filho. Em Cristo podemos afirmar que é possível e é desejo de Deus uma humanidade pacificada, sem violência, vivendo fraternalmente.  Como diz o Profeta Isaías, nossa atitude é a do discípulo, que não abandona seu Mestre, mas sempre quer aprender: “ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50,4).

Como chegamos a esta Semana? Como foi nosso caminho quaresmal, desde o dia da Quarta-feira de Cinzas, quando recebemos as cinzas na testa e ouvimos: “Convertei-vos e crede no Evangelho”? Sabemos que a vida toda é um caminho de conversão para sermos, cada vez mais, parecidos com Jesus Cristo e construirmos a paz em nós, nas famílias e na sociedade. Nestes dias, com Cristo que sofre a Paixão e Morte e é ressuscitado pelo Pai, os cristãos renovam a fé, sobretudo na celebração da Vigília Pascal do sábado de aleluia. Misturam-se dor e esperança. Mais uma vez fazemos memória de todo o ódio e mal descarregados sobre o inocente “Servo Sofredor”, que mansamente superou a violência unicamente pelo amor redentor, abrindo para a humanidade um caminho de esperança e vida nova. E nós, os fiéis, repetimos: “concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão”. Não podemos marcar estes dias com lamentações, mas permitir que a esperança, que brota da ressurreição do Crucificado, seja renovada, confirmada. Afinal, o Crucificado já ressuscitou e está vivo conosco sempre. “A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual” (Evangelii Gaudium, 276).

Para o católico esta semana não é um feriado. São dias intensos. Ainda é tempo de realizarmos uma boa confissão, fonte de reconciliação e paz. Fixemos nosso olhar e nosso pensamento no Crucificado-Ressuscitado. Acolhamos as leituras bíblicas de cada dia da semana: os quatro Cânticos do Servo Sofredor de Isaías; os relatos da Paixão do Senhor; a última ceia e o lava-pés, com o mandamento do amor; a sequência das leituras da Vigília Pascal e, sobretudo, os anúncios da Ressurreição do Crucificado. Acolhamos o dom da eucaristia e do sacerdócio, renovado pelos padres na Missa do Crisma da Quinta-feira Santa. Renovemos o nosso batismo na Vigília Pascal. Exercitemos a prática da misericórdia e da caridade. Enfim, são dias diferentes, espiritualmente únicos no calendário anual. Por isso, é “a grande semana”.

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta